domingo, 3 de março de 2013

Tenho a certeza de que sou eu-mesmo?


Diário de Coimbra, 3.mar.2013

Quando nos sentimos invadidos por estados de alma negativos, não somos verdadeiramente nós-próprios. Somos apenas algumas partes de nós, as partes doentes. Estamos doentes quando nos identificamos unicamente com estas partes.

A nossa verdadeira essência é muito diferente! Os estados de alma negativos também são úteis, mas devem ser momentâneos. Quando dermos por eles, devemos aceitá-los como amigos e compreender o que querem transmitir-nos.

Podem querer avisar-nos de que estamos a viver um período de preguiça e, portanto, pretendem despertar-nos; podem fazer-nos compreender que temos demais e devemos tornar-nos mais essenciais, abandonar as necessidades criadas pela sociedade, que não são nossas nem autênticas. Por vezes, dizem-nos que nos tornámos hiperativos; outras, que estamos deprimidos; outras ainda, que estamos a ficar dependentes de algo, que apenas queremos alcançar uma posição

de poder, etc. Seja como for, chegam sempre, mesmo que por poucos instantes, quando perdemos a nossa verdadeira essência. Então, não somos verdadeiramente nós-próprios, porque estamos cheios do nosso falso EU, e, por isso, sentimo-nos deprimidos, fracassados, violentos, culpados, inferiores. E quanto mais tempo estivermos cheios do nosso EU, tanto mais os nossos estados negativos passam de instantes, de momentos, a longos períodos e tanto mais dolorosa se torna a sua mudança para estados positivos.

É de facto assim, mas sempre se pode mudar. Escolhe-se sempre, mesmo quando não se quer. Não se nasce pessimista. Opta-se por ser pessimista! O modo de enfrentar a vida é uma opção. Opta-se sempre, mesmo quando não se quer ou se pense que não optou. A não opção é já uma opção! Quando vemos “preto” é porque o escolhemos. Contudo, esforcemo-nos por não atribuir a culpa aos outros, ao destino ou a Deus e nem sequer a nós mesmos. Em compensação, procuremos mudar o nosso modo de pensar.

Também não devemos pensar que somos perfeitos. A maior parte de nós não terá prémios, não alcançará fama, não se tornará poderoso, económica ou politicamente. Mas a maior parte de nós poderá apreciar um pôr do sol, usufruir da frescura da chuva, do calor do sol, duma noite estrelada, do canto das aves. Estas coisas e outras encontram-se com abundância e estão à nossa completa disposição, basta agarrá-las!

É mais fácil lamentarmo-nos do que mudar. As pessoas até podem habituar-se a ser infelizes. Todas as manhãs, milhões de pessoas levantam-se, esperando um dia cheio de problemas, de aborrecimentos, de trabalhos. No entanto, continuam resignadas a viver do mesmo modo. Renderam-se. Não procuram caminhos de saída, até receiam mesmo conhecer pessoas serenas, fortes, não deprimidas…, esperando vir, um dia, a morrer tranquilamente, ignorando que já estão mortas há muito tempo. São pessoas “drogadas ” de pensamentos negativos, são personalidades infelizes e fracas que nunca compreenderam que apenas há um caminho para se tornar verdadeiramente fortes: formar dentro de si, e não fora, um fundo de felicidade que as leve a viver com alegria a partir do seu interior, do seu coração. Fazer das pedras encontradas no caminho a escada para alcançar o melhor. Se alguém encontrar espinhos pelo caminho, não se deve preocupar, pois o maior Homem do mundo, Cristo, fez de espinhos a sua coroa de Vitória.

Ao contrário, os “drogados” de otimismo e de força, encontram sempre dentro de si, caminhos de saída para qualquer situação que estejam a viver. Sabem esperar pelo melhor e sabem lidar com o pior. Sabem ver uma oportunidade em cada dificuldade. Procuram semear otimismo e plantar sementes de paz e justiça. Não deixam que os espinhos impeçam o perfume das flores. Tais pessoas, apostadas em superar as situações e dar-lhes sentido, prosseguindo a sua viagem da vida, sairão dessas experiências dramáticas mais fortalecidas e enriquecidas. São entendidas nas coisas negativas que experimentam, mas são mestres nas positivas. Têm uma visão larga, sabem olhar para o mundo e para os homens, sem amargura, mas com simplicidade e esperança. São humildes e fortes. Não temem mostrar as suas fraquezas, porque as conhecem bem e conseguem torna-las suas amigas. Lutam sempre por sair do negativo para o positivo.

Então, se eu for deste tipo de pessoas, se me conhecer e me aceitar nas partes negativas e nas positivas, se me aceitar no meu todo, terei a certeza que sou eu mesmo.

Alberto Lopes Gil

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