domingo, 10 de novembro de 2013

Doutrina Social da Igreja: uma reflexão sempre em construção

Diário de Coimbra, 10.nov.2013

A Comissão Diocesana Justiça e Paz (em parceria com outras entidades eclesiais e civis, que seria longo citar) vai promover, em data próxima, um debate sobre “a mudança no mundo do trabalho”. A minha tese é que iniciativas como essa são verdadeira construção de Doutrina Social da Igreja.

O Concílio Vaticano II, que, na década de 60, reuniu em Roma mais de 2000 bispos de todo o mundo, durante 4 anos, para discutir a vida da Igreja e a sua relação com o mundo, ignorou o conceito de “doutrina social”. A razão terá sido a de evitar identificar a reflexão da Igreja sobre matérias sociais com uma “terceira via” entre o marxismo e o capitalismo, arrastando a Igreja para um confronto direto e alternativo com os sistemas políticos instaurados. A Igreja recusava-se conscientemente a apresentar ou a apresentar-se como uma alternativa política, assumindo-se antes como inspiração crítica e construtiva por dentro de todos e qualquer um dos “legítimos” sistemas político-económicos dos povos.

A expressão “Doutrina Social” estaria assim muito próxima de cair no esquecimento se João Paulo II não a tivesse re-promovido na carta-encíclica “A solicitude Social da Igreja”. Mas o Papa, que a retoma, marca-lhe também os limites: “A Doutrina Social da Igreja pertence ao campo da teologia, e concretamente da teologia moral” (cf 31). Ou seja, trata-se de uma reflexão, racional, que parte da fé e procura incidir sobre os comportamentos dos crentes nas suas múltiplas atividades sociais, embora seja naturalmente suposto que a Igreja, num espírito de diálogo e partilha, a ofereça ao mundo como um contributo próprio para a construção das realidades terrestres. Ora bem, tal reflexão vai sendo aprofundada e sistematizada (“acurada”) em princípios e valores que constituem um património doutrinal na tradição da Igreja, património esse que hoje se aceita mais ou menos pacificamente como sendo a “Doutrina Social da Igreja”.

Resulta deste enunciado que se trata de uma reflexão sempre em aberto, pelo menos em três dimensões. Desde logo, na capacidade de “acuramento”. Para não irmos mais longe, a encíclica “A caridade na verdade” (2009), de Bento XVI, deixou significativamente desatualizado o Compêndio de Doutrina Social da Igreja (2004). E é previsível que o mesmo aconteça com a Encíclica que se anuncia do Papa Francisco sobre as questões à volta da pobreza. Depois, uma reflexão sempre aberta nos conteúdos, porque novas situações exigem nova reflexão. E, finalmente, uma reflexão sempre aberta às diversidades e especificidades sociogeográficas, porque as situações são muito diferentes de local para local.

A este propósito, já o Vaticano II reconheceu que sobre os grandes problemas sociais apenas podia fazer uma doutrina genérica, confiando aos cristãos, sob a direção dos pastores, “a adaptação dessa doutrina a cada povo e mentalidade” (cf Gaudium et Spes, 41); alguns anos depois (1971), e mais incisivo, Paulo VI escrevia ao cardeal Maurício Roy: “É às comunidades cristãs que cabe analisar, com objetividade, a situação própria do seu país e procurar iluminá-la, com a luz das palavras inalteráveis do Evangelho; a elas cumpre haurir princípios de reflexão, normas para julgar e diretrizes para a ação, na doutrina social da Igreja, tal como ela vem sendo elaborada, no decurso da história”. Ou seja, a Doutrina Social da Igreja é, certamente, aquele corpo doutrinal da tradição eclesial, elaborado sobretudo desde o final do século XIX, mas é também o conjunto das aportações que, à luz daqueles princípios gerais, os cristãos concretizam em princípios, juízos e intervenções adequadas à sua situação cultural e social concreta. Para nós, aqui, em Coimbra…; E por nós!

Carlos Neves

domingo, 3 de novembro de 2013

A vida para além da morte

Diário de Coimbra, 3.nov.2013

Quem cresce numa família numerosa habitua-se desde muito cedo a conviver com a diversidade e, sobretudo, com posicionamentos completamente distintos sobre questões políticas e religiosas. Este treino continuado permite encarar com respeito o que nos separa e, não raro, provoca discussões longas e acaloradas.

Cá em casa, essa prática – por vezes ruidosa e até cansativa – ocorria preferencialmente aos sábados, durante o almoço familiar que juntava quem estivesse próximo de Coimbra. Infelizmente, depois da morte dos nossos Pais os debates tornaram-se muito mais escassos e breves.

Um dos temas recorrentes no início de novembro era a questão da morte. Tal motivava quase sempre polémicas sobre a utilidade das visitas ao cemitério, o arranjo dos jazigos e das campas e, naturalmente, o controverso conceito de «céu». Imagine-se uma assembleia em que uns encaram os locais de sepultura como um ambiente propício ao encontro com os familiares e amigos entretanto falecidos e ao reforço dos laços que a morte não conseguiu interromper, enquanto outros, pela inversa, os consideram deprimentes e sem sentido.

Todavia, embora muito raramente surgissem consensos, todos ficávamos perturbados quando um dos mais pequenos nos interrompia, possivelmente com saudades de um dos avós, e perguntava: «Porque é que as pessoas vão para o céu? Mas onde é o céu? E como é o céu?».

Quando fui interpelada pela primeira vez nestes termos fiquei francamente atrapalhada e sem saber o que responder. Felizmente, fui salva pela sensatez do pequeno inquiridor: «Oh! A mãe também não sabe, a mãe nunca foi ao céu». Suspirei de alívio. No entanto, ainda hoje tenho dificuldade em explicar a uma criança que, para nós cristãos, a morte não é o fim da vida, antes o começo de uma outra, a que chamamos «vida eterna». E que, para compreendermos este conceito, que procura dar nome a uma realidade desconhecida, temos de nos abstrair da temporalidade de que somos prisioneiros, e de alguma forma conjeturar uma vida de «pura felicidade», na qual todas as limitações e fragilidades humanas são superadas.

Todavia, se por um lado é verdade que nos confrontamos com a morte quase todos os dias, por outro é natural que não desejemos morrer e, sobretudo, que aceitemos com muita dificuldade a morte de quem mais gostamos. A nossa Mãe dizia frequentemente que sentia a morte do marido como uma amputação, como se a tivessem privado de parte de si. Por isso detestava que lhe perguntassem se já estava conformada.

Também sinto que não me conformei com a perda da presença física dos meus Pais, apesar de os saber presentes no dia-a-dia: na forma como eu, os meus irmãos, filhos e sobrinhos somos e vivemos quotidianamente. Embora nos primeiros tempos essa recordação permanente me entristecesse profundamente, hoje em dia é muito mais serena e reconfortante.

É por isso que, do meu ponto de vista, a melhor maneira de encarar a morte e de testemunharmos esta esperança numa nova vida – permanecendo firmes nos bens que esperamos e na certeza de realidades que não vemos – passa por vivermos sem desperdiçar o tempo de que dispomos, não o gastando a ter medo ou a odiar. Porque, como escrevia Pablo Neruda, «morre lentamente quem passa os dias a queixar-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de o iniciar …». Ao desafiar-nos, assim, a evitar «a morte em doses suaves», o poeta convida-nos a ter sempre presente que «estar vivo exige um esforço muito maior do que o simples ato de respirar.»

Estejamos vivos, então!

Teresa Pedroso de Lima

domingo, 27 de outubro de 2013

Carta Aberta à Assembleia da República

Diário de Coimbra, 26.out.2013


Caros Deputados.

Através desta missiva, venho dirigir-me a todos e cada um de vós, num momento que considero de especial relevância para os portugueses, dado que nas próximas semanas ides ser chamados a debater e a aprovar o Orçamento de Estado para 2014.

Reconheço que se trata de um processo difícil sobretudo para aqueles de vós que, sem qualquer preconceito ideológico, colocam de facto e em primeiro lugar os problemas e os desafios que verdadeiramente afetam os portugueses, nomeadamente todos os nossos concidadãos que vivem com maiores dificuldades e sem qualquer apoio de natureza social.

Integro-me no grupo dos cidadãos portugueses que defende, de forma muito determinada, que todos - cidadãos e organizações, qualquer que seja a sua natureza pública ou privada, incluindo o próprio Estado - devemos viver de acordo com as nossas possibilidades, ou seja, que todas as despesas que fazemos devem ter sempre em consideração o montante de rendimentos que auferimos.

Ora, esta não foi, como bem sabemos, a prática seguida pela maioria dos governos desde o 25 de Abril de 1974. Com a cumplicidade de alguns de vós e dos que vos antecederam, foi permitido que os governos insistissem na prática reiterada de gastar mais do que deviam em prol de causas, muitas das quais de eficácia e relevância muito duvidosa.

Chegados aqui, com uma tremenda dívida acumulada que cresce todos os anos em resultado dos persistentes défices anuais nas contas do Estado, reconheço que Portugal está de facto numa situação extremamente difícil, por responsabilidade muito mais vossa do que nossa.

Neste contexto, compreendo que assiste, “aos que todos os anos nos emprestam mais dinheiro”, o legítimo direito de exigir que o Governo faça com que as contas anuais do Estado fiquem mais equilibradas, o que está ainda muito longe de acontecer.

Considero assim adequado que o Governo se empenhe em garantir que a diferença entre as despesas e as receitas do Estado para 2014 não ultrapasse os 4% do PIB, ou seja, os 6.793 milhões de euros, sendo que em 2013 essa diferença poderá rondar os 9.800 milhões de euros.

É, neste sentido, que me dirijo a cada um de vós com o objetivo de vos interpelar para que os cortes de despesa que venham a ter de aprovar garantam de forma absolutamente clara que todos os cidadãos serão tratados de forma justa, e que os sacrifícios que nos vão ser impostos serão justamente repartidos de acordo com as nossas possibilidades.

Assiste-me o legítimo direito de solicitar de todos e de cada um de vós que, do conjunto das medidas que venham a aprovar, faça parte:

1 - Exigir ao Governo que proceda a uma rigorosa avaliação de todos os organismos e entidades do Estado para que os que não forem indispensáveis sejam imediatamente extintos;

2 - Aumentar a taxa especial que vai incidir sobre os Bancos e alargar a sua aplicação a todas as grandes empresas a operar em Portugal;

3 - Garantir que a aplicação da redução da taxa de IRC aos grupos económicos nacionais só será aplicada se estes voltarem a instalar as suas sedes em Portugal por um período nunca inferior a 10 anos;

4 – Eliminar, a título definitivo, as subvenções vitalícias atribuídas aos ex-detentores de cargos políticos;

5 – Suspender os subsídios atribuídos aos partidos políticos representados na Assembleia da República;

6 – Reduzir as taxas de juro suportados pelas PPP, fixando a taxa máxima em 1%. Todos os contratos com taxas superiores ficam suspensos até que a situação do país o permita;

7 – Reduzir imediatamente o número de viaturas de serviço dos membros do governo e dos servidores do Estado a um mínimo indispensável.

8 - Suspender a atribuição de benefícios adicionais ou especiais a empresas públicas e instituições públicas ou privadas, que impliquem aumento de despesa;

9 – Renegociar com a troika a redução em 50% dos juros a pagar por Portugal em 2014 e que o ganho obtido seja exclusivamente afeto a apoiar projetos geradores de emprego e a ajudar os nossos concidadãos que estão desprovidos de qualquer apoio de natureza social.

Abel Pinto

domingo, 20 de outubro de 2013

Os problemas existem

Diário de Coimbra, 20.out.2013

Há muitas pessoas que acreditam que são as únicas que têm uma vida difícil. Esquecem-se que a vida é difícil para todos. Ninguém fica de fora.

Outros pensam que a vida é isenta de problemas. Ou procuram afastá-los por completo. Isso não é possível. Pelo contrário, a vida é uma sucessão de problemas. É precisamente ao enfrentarmos e tentarmos resolver os problemas que a vida adquire significado.

Os problemas dão-nos coragem, tornam-nos conscientes e responsáveis. Infelizmente, se não os enfrentarmos e se não os superarmos, eles acabam por nos trazer sofrimentos, frustração, dor, tristeza, solidão, medo, sentimento de culpa, complexo de inferioridade, ansiedade, angústia e desespero. É por tudo isto, que os seres humanos tendem a fugir-lhes, fazem tudo para não os enfrentar, para os negar, para não os verem, para os mandarem embora. Mas a fuga aos problemas é a principal causa das neuroses.

Quem não sofre com os problemas não consegue crescer. Enfrentá-los e suportar os sofrimentos que daí advêm, pode tornar-se, pois, útil e necessário, mesmo indispensável.

Passa o tempo… e os problemas vão-se resolvendo. De facto, na vida, o estado doloroso e a frustração quando nos sentimos cheios de problemas, impotentes, pequeninos, fragilizados, são de tal ordem que queremos ver-nos livres deles depressa, resolvê-los rápida e imediatamente. Mas, na realidade não é assim. Tudo leva o seu tempo. Um dos modos para saber viver consiste em aceitar sempre o tempo necessário à resolução de um problema. Enquanto que aquilo que nós geralmente queremos é fazer tudo demasiado depressa! Mas o desenvolvimento da pessoa, a caminhada de crescimento para a consciência de si próprio, a capacidade de amar, de ir ao encontro, de ser-se amigo, exigem tempo.

Se pretendemos tornar-nos capazes de dar e receber amor, amizade, necessitamos aprender a dedicar tempo a nós próprios. Não existe solução imediata para nada. Quando nos encontramos perante problemas interpessoais e sentimos não estar a conseguir compreender o que se passa, é sinal que não estamos a dedicar o tempo suficiente à sua análise para os compreendermos, para encontrarmos soluções adequadas.

Os problemas não se resolvem sozinhos. Temos de ser nós a resolvê-los. O tempo não os resolverá por nós. A realidade tem de ser enfrentada, superada, vivida.

Por outro lado, os problemas não existem por si próprios. Existem porque nós existimos. E se não queremos assumir a responsabilidade das suas consequências desagradáveis, seremos forçados a enfrentar os egoísmos que trazemos cá dentro. O problema, contudo, reside em que grande parte das pessoas tenta basear a sua existência, a sua atitude perante a vida, numa redução de riscos, de responsabilidades. Querem viver tranquilamente. Fazem tudo para não sofrerem. Renunciam às infinitas potencialidades com que Deus os dotou, para enfrentarem qualquer tipo de dor ou de medo. Parecem ignorar que os problemas existem sempre. Quando o melhor será enfrentarmos a nossa verdadeira natureza, aquela com que nascemos, explorando e aceitando também os aspetos frágeis, mais débeis, mais negativos, para podermos melhorá-los, para lhes darmos um novo significado.

Os problemas assumem, então, um significado particular, vital, que nos guia, que nos orienta, num sentido formativo, essencial, pessoal. As pessoas que encontramos e as dificuldades que daí advêm, tornam-se parte integrante do significado que daremos a nós próprios, à nossa existência. Serão, sobretudo, as nossas reações, as nossas respostas, o nosso comportamento, o nosso modo particular de enfrentar os problemas trazidos pelos outros, o grande indicador e a forma de desvendar a nossa verdadeira personalidade. Dir-nos-ão verdadeiramente quem somos. Pôr-nos-ão completamente a descoberto, disponíveis para a realidade e verdade, para nós mesmos e para os outros, em resumo, para Deus. Só assim nos sentiremos finalmente libertos.

Se quisermos viver a vida com verdade, torna-se necessário que aprendamos, em primeiro lugar, ou mesmo depois, a ver e a viver a vida, como um conjunto de problemas que, na realidade, são sinais e provações, através dos quais exercitamos o nosso único e verdadeiro poder, que é, afinal, a capacidade de conseguir enfrentá-los. Apenas ao vivermos os problemas que nos aparecem, nós damos forma, nós assumimos a dignidade de sermos pessoas. Caso contrário, somos vítimas dos problemas que existem em nós.

Alberto Lopes Gil

domingo, 13 de outubro de 2013

Salas de (des)espera

Diário de Coimbra, 13.out.2013


Quase todos nós já passamos pela experiência de aguardar a chamada para uma consulta ou tratamento numa sala de espera de um serviço público de saúde.

Quem já passou por várias destas salas de espera pôde reparar que as há de tamanhos e feitios diferentes. Encontramo-las enormes ou exíguas, largas ou estreitas (às vezes meros corredores), de teto baixo ou elevado, com janelas ao nível dos olhos ou junto ao teto em bandeira basculante, etc. etc..

Estas variações resultam do modo como a prestação do serviço foi concebida (ora concentrada, ora dispersa) e, numa grande parte dos casos, da necessidade de os serviços se adaptarem às condições arquitetónicas dos edifícios onde se encontram.

As acomodações destinadas aos doentes e acompanhantes, quando chegam para as encomendas, apresentam as mais diversas caraterísticas. Há cadeiras de plástico, outras de madeira e outras com armação de metal, por vezes misturadas na mesma sala, raramente confortáveis, e aparecem dispostas em filas ou encostadas às paredes.

Também podemos contemplar avisos, muitas vezes meras folhas de papel, inseridas em bolsas de plástico, coladas com fita-cola em vidros de janelas, portas ou divisórias, em paredes ou colocados em expositores. Os respetivos conteúdos variam. Aparecem, entre outras, indicações sobre os procedimentos a cumprir pelos doentes (nomeadamente relacionados com a marcação de consultas, exames ou tratamentos) e recomendações pretensamente profiláticas sobre determinada doença. Aquilo que se pretende transmitir nestes avisos raramente será interiorizado pelos destinatários, pois muitas vezes são textos longos e porque têm de ser lidos de pé e perto do local onde se encontram expostos. Ou seja, a mensagem fica, quase sempre, muito aquém do destinatário e percebe-se que para se atingir o objetivo pretendido seria melhor disponibilizar as informações de modo pessoal (personalizado, como agora se diz) e sistemático, através de folhetos informativos entregues na oportunidade adequada a cada doente.

Nestas salas de espera também existem, com muita frequência, um ou mais televisores, sintonizados num dos canais genéricos disponibilizando imagens quase sem som ou com som a mais que servem para ninguém ver, dada a distância a que têm de estar colocados em relação aos assistentes, constituindo meros enfeites consumidores de energia. Muitas vezes, esses televisores permanecem ligados mesmo quando a sala fica deserta após o termo das consultas.

Para além de tudo isto, os serviços organizam-se em função das suas próprias conveniências, convocando todos os doentes para a mesma hora ou para uma hora muito anterior à agendada, raramente cumprindo o horário previsto. Há sempre uma justificação para os atrasos, que resultam da desorganização dos serviços, mas que se repercutem sempre sobre o doente que espera… De tal modo que na população portuguesa está enraizada a ideia de que “nos serviços de saúde, todos temos de ter paciência e esperar”.

Em geral, as características das salas de espera bem como a forma de (des)organização dos serviços públicos de saúde refletem, de modo implícito, a conceção que os seus dirigentes e demais profissionais (ou pelo menos alguns) assumem na prática diária, consciente ou inconscientemente, sobre o modelo de relacionamento dos serviços com os doentes e seus acompanhantes. Trata-se de algo muito híbrido, pois tanto aparecem manifestações de uma postura autoritária (por exemplo, imposição de comportamentos com a indicação de consequências nefastas em caso de “desobediência”, estilo agreste nos textos dos avisos, omissão, muito habitual, do tratamento por “senhor” ou “senhora” na chamada sonora para a consulta) e defensiva (por exemplo, postos de atendimento com separadores de grande rigidez que dificultam muito a audição entre o doente e quem o atende) como podem aparecer procedimentos atenciosos, pelo menos aparentemente (por exemplo, lembretes no telemóvel a alertar para a data da próxima consulta) ou uma exagerada solicitude na forma de atendimento, às vezes roçando o paternalismo.

Mesmo que se entenda que esta vertente da prestação dos cuidados de saúde é de somenos importância (argumentando-se que o que importa é a segurança e a qualidade da prestação direta dos cuidados de saúde), vale a pena assinalar que “o tempo de espera para atendimento no dia da consulta ou tratamento” constituiu, pelo menos em 2009 e 2010, a segunda causa de reclamações de utentes de serviços públicos de saúde, conforme relatório da Inspeção Geral das Atividades de Saúde, infelizmente o único acessível no portal da saúde. Tal demonstra que as pessoas são sensíveis, e muito, ao que (des)esperam quando aguardam por uma consulta ou tratamento. Não se aplicará, nestes casos, com todo o fundamento, o ditado: “Quem espera desespera”?

Quando será que os dirigentes dos serviços de saúde e os profissionais de saúde passam a levar a sério esta sensibilidade?
 
Carlos Paiva

domingo, 6 de outubro de 2013

As Pessoas e os números

Diário de Coimbra, 6.out.2013

Preocupados com um quotidiano que nos absorve, e atraídos pelo borbulhar nervoso das notícias de última hora, distraímo-nos na leitura daqueles que são os sinais vitais duma sociedade em mudança profunda. Na verdade, a atenção suscitada pela torrente de acontecimentos que consideramos determinantes da nossa vida contribui para que releguemos para um segundo plano indicadores que deviam prender a nossa atenção e reflexão, quando não a nossa preocupação. A árvore não nos deixa ver a floresta.

Dando corpo a essa ordem de preocupações a última semana foi fértil na alusão de números que são retrato duma sociedade que enferma duma crise profunda, cuja superação implica respostas que inexistem no actual modelo político, económico e social.

Três indicações, são exemplo, na sua simplicidade, de que algo está mal. Assim, uma primeira constatação de que o número de nascimentos em Portugal em 2012 foi de 89.841 sendo certo que, na década de 60, a taxa de natalidade bruta era praticamente o dobro da atual. Em 50 anos Portugal passou de mais de 200 mil nascimentos anuais para cerca de 100 mil. Nos últimos anos verificou-se uma situação inédita no país: em 2007, 2009 e 2010 foram menos os que nasceram do que os que morreram. Em 2013 tudo indica que se irá verificar uma nova quebra. Na verdade, nos primeiros seis meses do ano nasceram 37.953 crianças pelo que, confirmando a tendência negativa, no final do ano o número de nados vivos pode situar-se abai¬xo dos 80 mil.

A decisão de ter um filho é algo de essencial na vida do casal, tomada na sua intimidade, e pressupõe uma vontade determinada de assumir a responsabilidade pelo nascimento de um novo Ser, em que nos revemos, proporcionando-lhe tudo o que se conjuga para o seu bem-estar. Porém, a essa vontade formada individualmente, deve corresponder o Estado com políticas de apoio que incentivem a natalidade e proporcionem as melhores condições à Família na certeza de que esta é um espaço único para que aquela Criança se desenvolva.

Não é isso é que tem acontecido e se, por um lado, a noção tradicional, e insubstituível, da Família é colocada em causa pela agenda dos temas fracturantes, igualmente é exacto que a situação económica e a falta de expectativa de emprego e de estabilidade destrói esse sonho de muitos jovens. A subida de impostos e a diminuição das deduções fiscais na educação e saúde não são o melhor incentivo para quem quer construir um futuro melhor para os seus.

Não é sustentável um país em que grande parte dos seus jovens constrói os seus sonhos, e o seu futuro, em função duma próxima ida para o estrangeiro onde tudo será mais fácil, incluindo o nascimento dum filho que, eventualmente, já será nacional de uma outra Pátria que lhe dá o pão.

Uma segunda noticia que é também um sinal de alerta é a circunstância do Eurostat indicar que, em Portugal e no ano de 2011, estavam em risco de pobreza ou exclusão social 2,6 milhões de pessoas, ou seja, o equivalente a 24,4% da população.Para além da sua simplicidade linear este número representa um enorme mundo de insatisfação de necessidades elementares e de exclusão social. As desigualdades sociais acumulam-se, e, para uma parte substancial da sociedade portuguesa, o viver o dia-a-dia tornou-se uma tarefa penosa.

Muitos são “novos pobres”, pessoas que, com a perda de empregos e de rendimentos que sobrevieram, passaram a conhecer dificuldades, ou mesmo a impossibilidade, de solverem os seus compromissos o que as coloca em posição particularmente vulnerável, ou na iminência de perderem a sua casa e os seus bens.

Por contraposição a esta parcela da sociedade encontramos a assimetria dum país que é o segundo com maior nível de desigualdade na União Europa na qual Portugal apenas é suplantado pela Letónia. Qualquer que seja o ratio que se utilize a posição relativa de Portugal não se altera e a proporção do rendimento auferida pelos 20% mais ricos e os 20% mais pobres é de 6.8 enquanto a média da U.E. é de 4.8.

Também, por aqui é necessária uma “revolução coperniquiana”. Muitos dos desafios com que a nossa sociedade, e os nossos políticos se confrontam, teriam uma outra resposta, bem mais positiva, se estivessem presentes alguns dos princípios fundamentais da doutrina social da Igreja e nomeadamente a procura do bem-comum; o direito ao trabalho e o respeito pela Verdade.

Uma terceira indicação, bem mais recente, refere-se ao número de abstenções nas últimas eleições que ascendeu a 47,4 %.Quase metade dos 9.492.396 eleitores inscritos optaram por não exercer o direito de voto nas autárquicas de domingo.

Estes últimos números prendem-se diretamente com os primeiros pois que a abstenção, mesmo quando traduz um voto de protesto perante a actuação de partidos nos quais não nos revemos ou de políticas que reprovamos, é um gesto de indiferença perante o exercício dum direito fundamental de cidadania. A mudança, pelo contrário, pressupõe a acção e implica o nosso empenho na construção duma sociedade civil mais forte, intervindo de todas as formas possíveis, animados unicamente pelo espirito do bem comum. Mesmo que a nossa intervenção na vida da Republica seja unicamente pelo mero acto de votar vem-nos à memória Abraham Lincoln quando afirmava que o “boletim de voto tem mais força que um tiro de espingarda."

A pobreza e o definhamento que os números apontam nunca será ultrapassada pela abstenção, e pelo alheamento, mas por uma cidadania activa e empenhada.
 
Santos Cabral

domingo, 29 de setembro de 2013

Vigilência e Intervenção

Diário de Coimbra, 29.set.2013

Terminado o dia, teremos votado. Teremos exercido o direito democrático de escolher aqueles que na nossa opinião mais serão capazes de governar as autarquias. Mas este exercício não esgota nem pode esgotar a nossa intervenção política na vida da cidade, do bairro, da aldeia, da rua…: a democracia representativa é uma conquista da História de indelével valor; mas se não for acompanhada por uma “democracia participativa”, facilmente descola da vida dos cidadãos e não raro se deixa amarrar por outros interesses.

Porque há mesmo outros interesses; interesses que não põem a dignidade das pessoas e o bem comum das comunidades como seu centro e meta, mas sim, dito de modo cru, e lembrando uma intervenção recente do Papa Francisco, o dinheiro. Ora, para o dinheiro, quem se coloca de permeio… ou ajuda, ou estorva. A nível internacional e nacional, sobram as evidências. Mas, à sua escala, a força corruptiva do dinheiro desce também às nossas cidades, vilas e aldeias, pela simples razão de que o “ter” é o cerne da cultura do nosso tempo. E, aqui, de permeio estão aqueles que hoje elegermos. Por isso, sejam quais forem os eleitos, eles precisam da nossa participação ativa que lhes facilite a fidelidade aos ideais de promoção do bem comum, reforço da cidadania e trabalho pelo progresso com que, estou em crer, todos eles se apresentaram às urnas.

Nesta lógica, o essencial da democracia participativa tem duas dimensões: a da vigilância e a da intervenção. Pela primeira, tentamos dificultar ao máximo os “desvios” daqueles ideais; pela segunda, tentamos criar sinergias positivas, apontando necessidades, enunciando alternativas, filiando-nos em projetos, aclarando valores, promovendo iniciativas, exercendo um juízo crítico que aplaude ou vilipendia sem outros limites que não sejam os da consciência pessoal informada… A questão é que reduzimos estas duas dimensões a uma só, a da vigilância, e mais ainda, entregámo-la quase em exclusivo à comunicação social, que, por sua vez, nem sempre a exerce bem. É uma demissão grave que, se não desculpa as fracas políticas e menos ainda qualquer cedência à corrupção dos atores políticos, também não os conforta nem suporta nas exigências mais radicais da sua missão: o bem de todas e cada uma das pessoas, na sua área de poder.

O dia de hoje é de grande importância, porque define ideias e orientações de fundo para os próximos anos, segundo os diferentes programas eleitorais. Mas não chega: para o nosso próprio bem, precisamos todos de combater a indolência e a apatia e de nos empenharmos criticamente na vida comunitária. Desde logo, pela grave razão de haver outros interesses que não são indolentes nem apáticos na destruição das pessoas e da própria comunidade política; depois, porque precisamos mesmo de construir outra polis, certamente também de progresso material, mas cujo centro seja a pessoa humana.

Carlos Neves

domingo, 22 de setembro de 2013

Portugal, a "loge" da UE?

Diário de Coimbra, 22.set.2013

Fui ver o filme “Gaiola Dourada”, uma película com bons atores, muito aplaudida e elogiada – mas também criticada – e que, tal como se publicita, procura prestar homenagem aos portugueses emigrantes da década de 70. Preparava-me para ter um serão agradável, mas acabei por sair aborrecida, desapontada, com uma sensação de amargo na boca que, no momento, não conseguia explicar.

Mais tarde, percebi que me incomodou constatar que a consideração e o respeito com que os líderes europeus (e não só) olham para Portugal é, em muito, semelhante ao modo como os habitantes do prédio parisiense tratavam a família Ribeiro. Pelo que me proponho, não pôr em causa a qualidade do trabalho de realizador Ruben Alves, antes partilhar a reflexão que me suscitou a história que nos conta.

Embora se justifique dizer que estamos perante uma comédia bem-disposta, com apontamentos satíricos e ternurentos, não concordo nada (mesmo nada) com os que afirmam que vivemos destinados a ser «pacatos e trabalhadores, poupados e prudentes», condenados a «sacrificarmo-nos generosamente, labutando dia e noite, para cumprir os nossos deveres» pelo bem, alegadamente comum, da Europa.

Do meu ponto de vista, pelo contrário, a situação atual do nosso país desaconselha que este tipo de abordagem humorística apenas nos divirta e, sorrateiramente, nos convide a continuar a pactuar com a forma como os nossos representantes (governo, eurodeputados e outros políticos), considerando ser este o único caminho, ratificam e valorizam as “ordens” que nos são dadas.

No filme, tal como na zona EU, o condomínio é gerido por uma senhora loura de cabelo curto, ali Madame Reichert, que, embora aprecie o zelo e empenho, dedicado e obediente da porteira Maria Ribeiro, evita, a todo o custo, desculpando-se com a crise financeira, qualquer despesa que contribua para a melhoria do rés-do-chão onde esta vive. Todavia, em simultâneo, almejando ficar bem colocada num qualquer ranking (digo, concurso), explora o mais possível a sua boa vontade, exigindo até cuidados reforçados e extremosos para com as flores do pátio.

Esta atitude abusiva é partilhada, em sintonia, por todos os que convivem naquele ambiente. A família Ribeiro parece ter nascido para, discreta e apagada, garantir o conforto dos que a rodeiam. Fazem babysitting, tratam da roupa, cuidam das flores e dos bonsais, distribuem o correio, limpam vidros e metais, consertam a canalização, etc. sempre com uma abnegação e cuidado exemplares. Contudo, ninguém, nem mesmo os familiares e conterrâneos, elogia ou valoriza o seu trabalho até … se verem na eminência de perder tão relevantes préstimos. Os que antes apenas comentavam “trop bon, trop con” (parvos de bons, diríamos nós) percebem que, afinal, grande parte do seu sucesso económico e social depende do trabalho daqueles que consideravam como meros ajudantes, sem entendimento nem liberdade.

Se, na década de 70, a coragem e a tenacidade dos emigrantes é digna de todo o nosso respeito, hoje, numa época em que se apregoa aos quatro ventos as virtudes do empreendedorismo, da criatividade e da inovação, terá sentido exaltar as qualidades da atitude passiva, obediente e subserviente?

Como podemos proclamar, como principais objetivos da União Europeia, a promoção da paz, dos seus valores e do bem-estar dos povos e, simultaneamente, esquecer o oitavo objetivo de desenvolvimento do milénio (ODM 8) – aquele que, significativamente, está mais longe de ser alcançado – que nos impele a «promover uma parceria global para o desenvolvimento»?

Neste momento – os trabalhos da assembleia geral tiveram início em 17 de setembro – os 193 estados membros da ONU estão a debater o desenvolvimento das nações pós- 2015 (data definida para alcançar os ODM). Este, sim, é um tema que nos envolve e um desafio que todos merecemos discutir. E que devemos enfrentar.

Teresa Pedroso de Lima

domingo, 15 de setembro de 2013

O povo merece mais e melhor

Diário de Coimbra, 15.set.2013

Comparando a situação financeira atualmente vivida pela maioria dos portugueses com a que desfrutavam antes do eclodir da crise internacional de 2008/2009, não há dúvida de que está bastante pior.

Todos fomos informados de que a situação económica portuguesa tinha chegado ao limite, em resultado dos inúmeros erros cometidos por quem nos tem governado, desde há muitos anos. Os mesmos erros são igualmente extensivo aos gestores das empresas e a muitas outras entidades públicas e provadas, aos especuladores e aos homens sem escrúpulos que gravitam à sombra do poder económico, financeiro e político.

Embora seja justo reconhecer que cada um de nós tem a sua quota-parte de responsabilidade em relação aos erros cometidos, considero que é imperativo reconhecer-se que tais responsabilidades não devem ser repartidas da mesma forma entre os que estiveram envolvidos nas decisões tomadas, com os cidadãos comuns.

Apesar disso considero-me também corresponsável pelo caminho seguido, dado que não assumi as atitudes cívicas que devia ter adotado, denunciando e combatendo com maior determinação os graves atropelos que têm vindo a ser cometidos em Portugal. Importa ter presente as consequências das medidas tomadas relativamente à qualidade de vida de muitos dos nossos concidadãos que perderam o emprego e a esperança e que se debatem com grandes dificuldades para garantir a sua sobrevivência e a do seu agregado familiar.

De facto, são inúmeras as injustiças que o processo de ajustamento em curso está a provocar em milhões de portugueses devida à repartição muito desigual dos sacrifícios que estão a ser impostos.

É recorrente sermos confrontados com notícias de que um elevado número de portugueses são atirados para um estado de grande penúria, ao mesmo tempo que outros cidadãos continuam a beneficiar de um estatuto privilegiado suportado por dinheiros públicos.

Refiro-me, concretamente, aos políticos que beneficiam de reforma vitalícia pelo exercício de funções públicas, aos que acumulam reformas pagas pelo Estado, Banco de Portugal, pela CGD e por outras entidades públicas, ao mesmo tempo que continuam a exercer outras funções profissionais; refiro-me aos que ganham salários chorudos em empresa que exercem a sua atividade económica em regime de quase monopólio como é o caso da EDP, REN, GALP, e que depois têm de ser suportados pelos preços excessivos exigidos aos consumidores; refiro-me aos gestores de bancos e outras grandes empresas privadas que ganham principescamente comparativamente aos restantes trabalhadores dessas mesmas empresas, mas que depois não têm qualquer pudor em recorrer aos apoios públicos para não irem á falência; refiro-me ao estatuto privilegiado de algumas classes profissionais como médicos, militares, juízes (incluindo os do Tribunal Constitucional), gestores públicos, membros dos órgãos das entidades reguladoras e muitas outras, quando comparado com os restantes trabalhadores da Administração Pública e do sector privado, nomeadamente no que diz respeito aos salários e outros benefícios auferidos; refiro-me aos beneficiários das Parcerias Público-Privadas das estradas, da saúde da energia….

Temos de reconhecer que, em Portugal, o fosso que separa os mais pobres dos que pertencem às classes mais privilegiadas não pára de aumentar, o que demonstra que o caminho que vem sendo percorrido não está a dar resposta eficaz a tamanha injustiça.

Urge mudar de rumo, o que passa por adotarmos, enquanto cidadãos, uma outra atitude em relação à vida política assim como em relação a todas as esferas de poder em Portugal. Não podemos continuar a aceitar com esta indiferença a perpetuação de tantas injustiças e que a própria Assembleia da República funcione como uma verdadeira “central de negócios” como bem refere José Gomes Ferreira no seu livro recentemente editado.

Abel Pinto

domingo, 25 de agosto de 2013

Tributo ao homem comum

Diário de Coimbra, 25.ago.2013

Inspirado pelo sacrifício duma juventude anónima que combatia, e morria, em nome da liberdade num Mundo dilacerado pela guerra, Aaron Copland compôs, em 1942, “Fanfarra para um Homem Comum”. Mais do que mais uma mera peça musical aquela obra é um símbolo, e uma homenagem, ao cidadão comum, isto é, a todos aqueles com quem nos cruzamos no dia-a-dia, iguais a tantos outros na sua singularidade.

Ao longo da História tem sido nesse Homem Comum que se encontra a força com que se alcançam as pequenas vitórias do quotidiano mas, também, se edificam os grandes projectos comuns e se dá forma às aspirações colectivas. É nesse Homem Comum que, por contraposição a um individualismo absorvente, encontramos, muitas vezes, vivo o sentir do dever, e da solidariedade, que nos une num elo infindável.

Os anos passaram desde o momento no qual, pela primeira vez, a obra Copland ecoou, mas a razão de ser da homenagem surge mais viva que nunca quando nos deparamos com tanta gente vulgar que, no seu quotidiano, consegue encontrar espaço para agir, e pensar, em favor de todos os outros, num imperativo que dimana da sua consciência e tem raiz nos Valores que os anima.

Exemplo vivo de tal abnegação no nosso País, e nestes dias causticados pela repetição do fenómeno dos incêndios estivais, é o esforço abnegado de tantos soldados da paz, Homens Comuns, que dispõem do seu tempo livre e arriscam a sua vida em favor de todos os outros. Ao seu lado o esforço de tantos voluntários que integrados nos mais diversos tipos de instituições de solidariedade consagram o melhor de si para superar as dificuldades que estes tempos de crise criaram para tantos outros. Hoje, como sempre, existiram Homens e Mulheres que, sem qualquer ansia de protagonismo ou desejo de publicidade, dão o melhor de si e, inclusive, apropria Vida como já aconteceu este ano com quatro desses soldados da paz.

Não obstante o avolumar do paradigma da mediocridade democrática é nesta gente comum que vamos encontrar tantos estes exemplos de grandeza e nobreza de carater emancipando-se da imanência vulgar daqueles quem não consegue ultrapassar o apelo hedonista duma sociedade de consumo que a todos pretende assimilar.

A questão não é, assim, da existência capacidade de entrega, e da solidariedade que anima tantos dos nossos concidadão, mas sim, ao invés, do relevo que a nível do espaço mediático é dado a outros comportamentos de sentido contrário, típicos de uma sociedade anómica, e sem rumo, que dominam o espaço público. Como afirma Lipovetsky, ao definir a nossa sociedade como post moralista, agora os objectos e as marcas exibem-se mais do que as injunções morais, a solicitação material sobrepõe-se à obrigação humanitária, as necessidades à virtude, o bem-estar ao Bem. A era moralista exortava aos deveres de cada um para consigo mesmo e para com os outros, nós convidamos ao conforto. A obrigação foi substituída pela sedução e o bem-estar tomou-se Deus e a publicidade o seu profeta. As relações entre os homens são menos sistematicamente representadas, e valorizadas, do que as relações dos homens com as coisas.

Um mero apontamento televisivo ou uma notícia de fim de página é muitas vezes a referência anónima sem relação, ou proporção, com o esforço que tanta gente anónima oferece sem qualquer prémio que não a satisfação do seu sentido do dever. Por contraposição são-nos apresentados como ídolos, e objecto de veneração, os subprodutos duma sociedade de consumo, fruto duma comunicação que não pretende transmitir quaisquer valores ou ideais, mas vender produtos ou pessoas.

A televisão que, no seu início, foi o palco nobre onde os cidadãos mais qualificados davam o seu contributo para a construção de uma sociedade mais qualificada, é hoje, muitas vezes, o circo onde, a pretexto dos cinco minutos de fama, ganham espaço os reality show onde os intervenientes se despem da sua privacidade mais intima e, com um sorriso nos lábios, violam a sua própria dignidade. São muitas vezes o exemplo vivo da degradação a que conduz o inefável desejo de ser conhecido e o único critério é a conquista do horário nobre mesmo que fruto do aviltamento da Pessoa.

É sobre esta contraposição entre duas formas diferentes de viver a relação com os outros que cada um de nós tem a obrigação cívica de se pronunciar e optar.

José Santos Cabral

domingo, 18 de agosto de 2013

Autárquicas - a festa da cidadania


Diário de Coimbra, 18.ago.2013

É lindo de ver – sem ironia, e problemas financeiros à parte – a proliferação de “festas do concelho” e respetivas tasquinhas em vésperas de eleições autárquicas, continuando a fazer jus à sabedoria romana panis et circenses ludi, ainda que tal sabedoria tenha levado à ruina do Império... Mas que querem?! Gosto do fervilhar das eleições autárquicas. É a política próxima do cidadão comum, que mistura numa mesma caldeirada festiva e multicolor tanto gestos abnegados de entrega à comunidade quanto os mais insondáveis egoísmos e as mais estranhas querelas pessoais. Tal como acontece na vida de cada um de nós! Permitam-me, aliás, reforçar desde já esta ideia de que não podemos pedir aos atores políticos mais do que pedimos a nós próprios, até porque eles estão muito mais expostos do que nós e, por isso, neles todos os defeitos pessoais se avolumam…

Isto não quer dizer que não devamos pedir mais aos atores políticos e pedir mais a nós próprios, o que é significativamente diferente. Ou seja, a necessária condescendência para com as universais fraquezas humanas não isenta, antes reivindica, uma exigência ética muito grande a quem se candidata a um lugar de exercício ordinário do poder político, seja a que nível for. Mas trata-se de uma exigência ética acreditada não tanto por uma folha limpa de erros presentes ou passados (que sempre deleitam a comunicação social e as oposições), mas sobretudo por uma luta consistente pelo bem comum, aquele bem que respeita “todas as pessoas e a pessoa toda”, numa expressão de Paulo VI a propósito do desenvolvimento, e que João Paulo II retoma a propósito, precisamente, da função política.

E não isenta também o conjunto dos cidadãos de se envolverem na causa política, seja como candidatos, seja como eleitores, cada um nos graus e modos em que as suas aptidões, capacidades e, eventualmente, os papéis sociais específicos que desempenha, o obriguem. João Paulo II, dirigindo-se aos cristãos (mas num juízo extensível a todos os cidadãos, porque o que está em causa é a construção desse bem “comum”, comum também a cristãos e não cristãos…), dizia: “As acusações de arrivismo, idolatria de poder, egoísmo e corrupção que muitas vezes são dirigidas aos homens do governo, do parlamento, da classe dominante ou partido político, bem como a opinião muito difusa de que a política é um lugar de necessário perigo moral, não justificam minimamente nem o ceticismo nem o absentismo dos cristãos pela coisa pública”.

Ora, pesem todas as deficiências – de mapa administrativo, de lideranças, de técnicos… - as autarquias, por razões de conhecimento e proximidade, são o campo por excelência do exercício efetivo desta cidadania política a que todos somos chamados. As eleições autárquicas serão sempre uma festa da cidadania, provavelmente mais do que qualquer outro acontecimento, mesmo que muitos potenciais candidatos se fiquem nas tintas e muitos cidadãos se abstenham de votar. E nós queremos participar dessa festa. Naturalmente, alguns excessos de campanha também deixarão mágoas pessoais; mas nada que em absoluto não se resolva logo a seguir, noutra festa, à volta dumas febras com um tinto na mão. É tão lindo ser-se tão humano!

Carlos Neves

domingo, 11 de agosto de 2013

Depressa e bem... com a senha B

Diário de Coimbra, 11.ago.2013

11 de julho, na Solum. Tocam a campainha. O carteiro entrega-nos uma carta registada do Serviço de Finanças. Suspiro, esperando não ter de me deslocar ao balcão da 1ª Repartição. Ainda guardo na memória as notícias recentes com relatos impressivos do caos instalado e das filas intermináveis por culpa do IMT, do IMI, do IRS ou de qualquer outro imposto.

Adepta fervorosa das lojas do cidadão, do Portal das Finanças e do centro de atendimento telefónico – que já me pouparam horas e canseiras, antes dificilmente evitadas – nunca consegui perceber a dinâmica e o funcionamento da generalidade dos balcões de atendimento da grande maioria dos serviços públicos.

Todavia, a sorte não está do meu lado. Na missiva, solicita-se que, no prazo de quinze dias, apresente os documentos que serviram de base para o preenchimento de um anexo G. Fico apreensiva, mas ainda me resta uma vaga esperança. Querendo evitar, a todo o custo, o atendimento presencial, opto por telefonar para o número de Coimbra. A resposta é perentória: devo apresentar os documentos “in loco”.

A quem me dirigir? E qual será a melhor altura?, pergunto. Não quero acreditar no que ouço. Preciso de uma senha B, mas hoje (são 11 horas) já se esgotaram (!!?). Há quem opte por chegar pelas 6 horas da manhã (repito, 6 horas da manhã) para a conseguir! Alego que, além das obrigações fiscais, tenho responsabilidades profissionais que me ocupam o tempo no horário de expediente e que me é imposto um prazo de quinze dias para regularizar a situação. Percebo que nada disso interessa e que a obtenção da senha B é indispensável.

Depois de – numa derradeira tentativa – ouvir o conselho de uma pessoa amiga, dou-me por vencida e desloco-me até ao dispensador das reclamadas senhas B. Nada feito, avisa-me um utente com simpatia: «Minha senhora, já são 10:00 horas, acabaram de extrair a última». Disciplinadamente, escolho outro dia. Sexta-feira, 18 de julho. Saio cedo de casa e dirijo-me ao estacionamento do Parque Verde da cidade. São quase 8 horas quando chego à 1ª repartição, onde aguardam, cá fora e em fila, mais de vinte pessoas. A porta está fechada e todos parecem encarar esse facto com uma naturalidade que me assusta. Um cenário deprimente, naquele parque de estacionamento assim transformado em (magnífica!) sala de espera.

Só nos abrem a porta uns instantes depois das 9:00. Consigo, finalmente, a senha B020 e entro para uma sala com dez balcões de atendimento. Preparo-me para esperar, mas, de forma surpreendente, chamam-me pelas 9:50. Sou atendida por A. F. que, de forma expedita e agradável, me informa que um imóvel herdado pelos filhos na sequência da morte de seus progenitores deve ser registado de forma diversa da que tinha sido por mim indicada. Podendo fazer essa alteração online, regresso a casa cheia de vontade de pôr um ponto final nesta saga. Não foi, contudo, fácil. Desta vez, nem o Portal das Finanças foi amigável. Para resolver o impasse foram necessários mais dois telefonemas, um deles, avisadamente, para falar com quem já tinha tratado do assunto.

Este episódio faz-me lembrar um provérbio a que a minha Mãe recorria quando desempenhávamos uma tarefa de forma atabalhoada e impaciente: «Depressa e bem ... há pouco quem». Ao que, podendo, respondíamos: «Mas, devagar e mal ... é geral».

E é para não ser muito injusta com pessoas como A. F. que, quando critico o atendimento em serviços públicos, ainda me inibo de dizer … devagar e mal … é geral.

Teresa Pedroso de Lima

domingo, 21 de julho de 2013

A Páscoa de José Dias

Diário de Coimbra, 21.jul.2013

Sabíamos que um dia teria de acontecer e que nunca estaríamos preparados para o momento da Páscoa do nosso querido companheiro e amigo José Dias.

Hoje, dia 15 de julho de 2013, data em que estas linhas começam a ser escritas, tivemos a notícia.

Gostaríamos de conseguir encontrar as palavras de consolo para a Fátima, que conjugou com ele a vida, para a Renata e David, frutos do seu encontro de amor bem como para a mãe e irmãos. Também gostaríamos de ser capazes de consolar todos os amigos e de nos consolar a nós mesmos.

O José Dias deixa-nos imensa saudade da sua amizade envolvente, do seu caráter indomável, da sua humildade cativante, do seu profundo e abrangente conhecimento científico e da sua inovadora sabedoria.

O José Dias cria-nos uma enorme perplexidade quanto a sermos capazes de dar continuidade à sua herança relacionada com o estudo e divulgação do pensamento social da Igreja.

O José Dias responsabiliza-nos e impele-nos ao compromisso eclesial com empenhamento individual e comunitário à luz do seu exemplo de amor à Igreja, criticamente construtivo.

O José Dias recorda-nos, permanentemente, a radicalidade do Evangelho e que toda a ação da Igreja se faz “em nome de Jesus Cristo”, como quis significar com o título que deu ao seu livro para formação básica em Doutrina Social da Igreja (DSI).

O José Dias demonstra-nos como a substância do saber e do compromisso real se sobrepõem aos títulos académicos.

O José Dias ajuda-nos a perceber o verdadeiro alcance e sentido de qualquer “acidente de percurso” (como ele chamou à sua doença) na nossa caminhada para a plenitude do Reino de Deus, à semelhança de Job.

O José Dias ensina-nos a louvar a Deus por todas as coisas boas que nos dá ao longo da nossa vida e a pedir, em vez da cura, capacidade para aceitar a Sua vontade.

O José Dias mostra-nos como e quando nos devemos recolher e guardar (“encostar às boxes” como ele dizia), sem capitulação, mas compreendendo a nossa finitude.

O José Dias combateu o bom combate, percorreu o seu caminho e guardou a fé, foi consequente e coerente no compromisso familiar e na atividade social e eclesial.

O José Dias é e continuará sempre a ser uma lição de vida para todos os que tiveram o privilégio de o ter como amigo ou de ter privado com ele, mesmo que por breve momento.

O José Dias é o irmão que parte, mas fica connosco para sempre.

Os membros da Comissão Diocesana Justiça e Paz (CDJP) partilham, cada um a seu modo, estas certezas e emoções, sentem a perda o seu expoente e impulsionador, mas esperam, a par da Diocese de Coimbra, dar continuidade ao trabalho encetado.

Carlos Paiva

domingo, 14 de julho de 2013

Os tempos que correm




 Diário de Coimbra, 14.jul.2013
Os partidos políticos são uma das principais formas de organização dos cidadãos e, em princípio, os ideais que estão inscritos na sua matriz genética convocam para as formas mais nobres de conceber, e realizar, o interesse comum. Sendo um poderoso instrumento de domínio social os partidos são, também, o meio adequado para a afirmação duma classe politica que, através do controle do aparelho do Estado, impõe a sua visão sobre o modelo de construção da sociedade.

Porém, cada vez mais o termo político assume um significado polissémico que abrange realidades distintas em que coexistem o sentido mais nobre da palavra e os outros. Neste domínio, num ensaio de 1927 em que está patente o seu fulgor intelectual, Ortega y Gasset estabelece uma tripartição dos governantes que se podem classificar como estadistas, como escrupulosos ou como pusilânimes. O homem de Estado, afirma aquele Autor, deve ter o que chama de "virtudes magnânimas", e não as "pusilânimes", sendo certo que aquelas causam muitas vezes a incompreensão derivadas da sua preocupação com o longo prazo e, consequentemente, toma decisões impopulares a curto prazo, enquanto a maioria dos políticos preocupa-se com resultados imediatos de suas ações. Sinteticamente o Estadista preocupa-se com a próxima geração e o político com a próxima eleição.

Infelizmente as últimas décadas remeteram para os arcanos da história a regra fundamental de que os políticos só têm assegurada sua legitimidade se, e na exacta medida, em que procuram decidir de acordo com o interesse da comunidade. Aquilo que é uma evidência da vida democrática, e que já para os filósofos gregos era uma regra básica na vida da “polis”, está hoje, muitas vezes subvertida pela forma de exercer o poder politico.

Na verdade, são cada vez menos aqueles que, pela dedicação à causa pública, prescindem de ocupações privadas, bem mais lucrativas, e aceitam o desafio de tomar nas mãos a condução do destino colectivo. Pelo contrário a opção pela política é muitas vezes subjugada a interesses que não são nem públicos nem admissíveis ética e legalmente. Em tais casos, o altruísmo político transforma-se numa nova doença do regime democrático que é o “parasitismo politico” e que, na sua forma extrema, implica a “patrimonialização privada” do interesse publico

À medida que cada vez mais actores políticos são o fruto de uma carreira formatada nas juventudes partidárias, sem qualquer aval de uma vida profissional de valia, maior é o perigo de agentes sem valor, e sem valores, utilizarem o Estado como se este fosse o condomínio privado duma classe que, segundo as alternâncias eleitorais, vai sendo gerido alternadamente pelos partidos do poder. A ocupação de cargos públicos em vez de ser o lugar nobre da realização da “res publica” transforma-se num objectivo da luta política, constituindo a recompensa do vencedor destinada ser entregue aos que colaboraram na vitória.

Esta constatação não é o mero fruto do sonho de uma noite de Verão mas, infelizmente, a constatação de um encadear de situações que, ao longo de anos, se tem verificado no nosso País. O lado negro do nosso regime democrático mostra-nos um catálogo de situações em que converge todo o tipo de práticas que, como maior ou menor ilicitude, despontam no espectro da patrimonialização do regime e da captura do Estado por interesses privados.

A falta de preparação e convicções de parte das elites políticas evidencia-se hoje através de uma outra doença evidenciada pela efervescência dos dias que passam. Na verdade, a ausência duma perspectiva de Estado sobre os problemas com que nos defrontamos conduz a decisões em que é patente a irresponsabilidade politica. Esta é tanto mais evidente quanto opções com uma profunda consequência no nosso viver colectivo são tomadas de ânimo leve sem qualquer ponderação sobre os seus efeitos.

Quando constatamos a forma como ao longo de décadas se distorceu o sentido de Estado uma das maiores perplexidades que nos invade é o motivo da deserção de políticos que professem esse sentido mais nobre da Política. Porém, tal constatação não foca sobre algo que nos seja alheio e só acontece porque, ao longo dos anos, pactuamos com a mediocridade e com a indigência moral de alguns responsáveis, premiando quem devia ser penalizado. Perante a História, ao abdicarmos da exigência ética na avaliação dos maus governantes, tornamo-nos cúmplices dos seus actos.

Por contraposição aos dias que passam vêm-nos à memória as palavras com que, noutro tempo, Sá de Miranda se referia aos que tinham por mister olhar os assuntos do Reino: Homem de um só parecer; De um só rosto, uma só fé; De antes quebrar que torcer . Ele tudo pode ser; Mas de corte homem não é. (Carta de Sá de Miranda a D. João III)
José Santos Cabral

domingo, 7 de julho de 2013

Os casos de rotulagem enganosa

Diário de Coimbra, 7.jul.2013

Por favor, não me reduzam os casos dos hamburgers de carne de cavalo rotulados como de carne de vaca ou dos ultracongelados de peixe-caracol rotulados como de bacalhau a um caso de saúde pública (que não o terão sido), ou a um crime económico (que o serão) e menos ainda a uma mera “irregularidade” (sic). Estamos a um nível muito mais profundo, ao nível da fronteira última entre a verdade e a mentira, ao nível de um dos fundamentos éticos mais consistentes e estruturantes das sociedades humanas: a verdade. Um nível tão profundo que, noutro âmbito de reflexão, Bento XVI, na sua última encíclica, escreve sem meios-termos: para a Igreja, o serviço à verdade é irrenunciável.

O comércio, enquanto atividade, sem pôr em causa as pessoas, desviou-se daquele padrão de que “o cliente tem sempre razão”, para um descarado desrespeito pelo cliente: habituou-se a definir ele mesmo quais são as nossas necessidades, a vender-nos produtos de qualidade sofrível, a inflacionar os preços para tornar os saldos apetecíveis, a vender-nos “marcas” por produtos, a instrumentalizar publicitariamente tudo e todos, a levar-nos a assinar contratos de letra miudinha que ninguém lê, a obrigar-nos a comprar dois rolos de fita-cola quando só precisamos de um ou cinco adaptadores de tomadas elétricas para os diferentes países do mundo quando precisamos só de um para Inglaterra! E nós, enquanto consumidores, temos “engolido” tudo isto, com muita indiferença, alguma reclamação mais ou menos inconsequente aqui ou ali, e alguns impropérios descarregados no seio familiar para descarga da frustração quando chegamos das compras e nos apercebemos mais nitidamente de quanto não fomos respeitados. Nesta prática instalada, a rotulagem mentirosa é apenas mais um passo; mas há passos que correspondem a ruturas absolutas entre o sim e o não. A rotulagem enganosa é uma opção radical pela mentira, sem gradualidades ou atenuantes. Por isso, independentemente de contextos ou de consequências, deve ser também condenada em absoluto, sem gradualidades ou atenuantes.

A verdade não é utilitarista. Mas, dito isto, até do ponto de vista utilitarista o comércio só tem a ganhar com a verdade. Por motivos complexos, o comércio exagerou as capacidades consumistas das pessoas. Os centros comerciais e as grandes superfícies replicaram-se e multiplicaram-se, matando o pequeno comércio e matando-se umas às outras. Isto no momento em que a abertura dos mercados ao nível planetário provocou, pelo menos nesta fase, desequilíbrios também eles planetários. Acresce a crise social-financeira, com o comum dos cidadãos sem dinheiro para consumir. A situação tornou-se crítica: o comércio, quase todo ele, vive com a corda na garganta. Até dói entrarmos nalguns espaços comerciais e termos a sensação de que eles não fazem caixa no final do dia para pagar a luz. Pois bem, se a estes fatores somarmos clientes desconfiados de que estão a ser enganados por rótulos falsos…, o que esperam os comerciantes vender?! Os comerciantes precisam dos consumidores do seu lado; e isso só é possível se entre ambos houver relações de verdade.

Carlos Neves

domingo, 30 de junho de 2013

Repensar a solidariedade


Diário de Coimbra, 30.Jun.2013

Fazer um comentário sobre o mundo que nos rodeia está a tornar-se um exercício repetitivo e pouco animador. Somos inundados por exemplos negativos enquanto os positivos se perdem no emaranhado da espuma dos dias. Procuramos exemplos de gestos libertadores e parece que não se encontra nada. Temos a corrupção que parece atingir todos os sectores sociais, incluindo o mundo da política, daqueles que legislam e nos governam. Temos uma justiça que se arrasta penosamente. Temos gestores que recebem por ano milhares de vezes o salário mínimo. Temos cada vez mais gente desempregada. Apetece gritar “Parem. Olhemos uns para os outros”. E perante este terreno desolador, fazer um comentário sobre os valores parece atirar-nos para fora deste mundo. E perguntamo-nos se não estaremos a falar para um outro mundo ou de um outro mundo, se não serão palavras perdidas, se vale a pena. Certamente que vale.

Hoje, já é comum ouvir falar-se de solidariedade. Contudo nem sempre o conteúdo é tão solidário como a palavra indica. É certo que há milhões de gestos anónimos ou institucionais que procuram melhorar as condições de vida angustiantes de centenas de milhares de pessoas. Mas que solidariedade é esta que nos permite passar despreocupados por um sem-abrigo a dormir no vão de uma montra de um qualquer banco? Que solidariedade é esta que impõe austeridades escandalosas aos países mais pobres e cria condições de empréstimo muito mais favoráveis para os mais ricos? Efectivamente, como diz A. Gusenbauer, “a Europa vive refém de um “paradoxo imoral", segundo o qual não se pode interferir nos mecanismos de mercado para salvar as pessoas, mas pode-se fazê-lo para salvar a banca”.

A solidariedade não é nada disto, nem sequer os impulsos generosos que nos assaltam a alma pontualmente perante uma tragédia ou sazonalmente segundo o ciclo festivo do ano. João Paulo II foi um grande apóstolo da solidariedade, enriquecendo o seu conteúdo. Viveu-a e pregou-a tão intensamente que alguns o acusaram de estar a fazer propaganda do sindicato polaco Solidarność (Solidariedade). O que ele quis fazer foi aprofundar este conceito, pois, como diz o papa Francisco, “a solidariedade não é só uma atitude, não é uma esmola social, mas um valor social”. Há, portanto, que repensá-la “não apenas como simples assistência aos mais pobres, mas como uma revisão global de todo o sistema, como busca de caminhos para reformá-lo e corrigi-lo de modo coerente com os direitos fundamentais da pessoa, de todos as pessoas”.

A solidariedade não é, pois, um simples sentimento de compaixão vago ou um enternecimento superficial, mas “a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum, ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos”. Não é, pois, uma atitude momentânea mas uma preocupação permanente, um estilo de vida que deve marcar as nossas decisões e as nossas acções.

A solidariedade faz-nos crescer em conjunto. Faz-nos sentir e torna-nos componentes de um mesmo “sólido”, de um mesmo bloco, em que todos os constituintes, embora diferentes, são iguais. Torna-nos uma família onde todos procuramos superar as dores e sofrimentos dos seus membros. Por isso, o exercício da solidariedade impõe regras a todos, sempre condicionadas pela centralidade das pessoas e não do capital ou do sistema bancário. Só assim, seremos capazes de “ver o «outro» — pessoa, povo ou nação — não como um instrumento qualquer, de que se explora, a baixo preço, a capacidade de trabalho e a resistência física, para o abandonar quando já não serve; mas sim, como um nosso «semelhante», e «auxiliar», que se há-de tornar participante, como nós, no banquete da vida, para o qual todos os homens são igualmente convidados por Deus” (João Paulo II, Sollicitudo rei socialis, 39).

Este é o tempo de solidariedade a sério, porque sem solidariedade não há sociedades justas.

José Dias da Silva

Sim, nós podemos!

Diário de Coimbra, 29.dez.2013 Temos a noção de que atravessamos tempos únicos em que os desafios intranquilos duma nova era da Civil...