domingo, 25 de agosto de 2013

Tributo ao homem comum

Diário de Coimbra, 25.ago.2013

Inspirado pelo sacrifício duma juventude anónima que combatia, e morria, em nome da liberdade num Mundo dilacerado pela guerra, Aaron Copland compôs, em 1942, “Fanfarra para um Homem Comum”. Mais do que mais uma mera peça musical aquela obra é um símbolo, e uma homenagem, ao cidadão comum, isto é, a todos aqueles com quem nos cruzamos no dia-a-dia, iguais a tantos outros na sua singularidade.

Ao longo da História tem sido nesse Homem Comum que se encontra a força com que se alcançam as pequenas vitórias do quotidiano mas, também, se edificam os grandes projectos comuns e se dá forma às aspirações colectivas. É nesse Homem Comum que, por contraposição a um individualismo absorvente, encontramos, muitas vezes, vivo o sentir do dever, e da solidariedade, que nos une num elo infindável.

Os anos passaram desde o momento no qual, pela primeira vez, a obra Copland ecoou, mas a razão de ser da homenagem surge mais viva que nunca quando nos deparamos com tanta gente vulgar que, no seu quotidiano, consegue encontrar espaço para agir, e pensar, em favor de todos os outros, num imperativo que dimana da sua consciência e tem raiz nos Valores que os anima.

Exemplo vivo de tal abnegação no nosso País, e nestes dias causticados pela repetição do fenómeno dos incêndios estivais, é o esforço abnegado de tantos soldados da paz, Homens Comuns, que dispõem do seu tempo livre e arriscam a sua vida em favor de todos os outros. Ao seu lado o esforço de tantos voluntários que integrados nos mais diversos tipos de instituições de solidariedade consagram o melhor de si para superar as dificuldades que estes tempos de crise criaram para tantos outros. Hoje, como sempre, existiram Homens e Mulheres que, sem qualquer ansia de protagonismo ou desejo de publicidade, dão o melhor de si e, inclusive, apropria Vida como já aconteceu este ano com quatro desses soldados da paz.

Não obstante o avolumar do paradigma da mediocridade democrática é nesta gente comum que vamos encontrar tantos estes exemplos de grandeza e nobreza de carater emancipando-se da imanência vulgar daqueles quem não consegue ultrapassar o apelo hedonista duma sociedade de consumo que a todos pretende assimilar.

A questão não é, assim, da existência capacidade de entrega, e da solidariedade que anima tantos dos nossos concidadão, mas sim, ao invés, do relevo que a nível do espaço mediático é dado a outros comportamentos de sentido contrário, típicos de uma sociedade anómica, e sem rumo, que dominam o espaço público. Como afirma Lipovetsky, ao definir a nossa sociedade como post moralista, agora os objectos e as marcas exibem-se mais do que as injunções morais, a solicitação material sobrepõe-se à obrigação humanitária, as necessidades à virtude, o bem-estar ao Bem. A era moralista exortava aos deveres de cada um para consigo mesmo e para com os outros, nós convidamos ao conforto. A obrigação foi substituída pela sedução e o bem-estar tomou-se Deus e a publicidade o seu profeta. As relações entre os homens são menos sistematicamente representadas, e valorizadas, do que as relações dos homens com as coisas.

Um mero apontamento televisivo ou uma notícia de fim de página é muitas vezes a referência anónima sem relação, ou proporção, com o esforço que tanta gente anónima oferece sem qualquer prémio que não a satisfação do seu sentido do dever. Por contraposição são-nos apresentados como ídolos, e objecto de veneração, os subprodutos duma sociedade de consumo, fruto duma comunicação que não pretende transmitir quaisquer valores ou ideais, mas vender produtos ou pessoas.

A televisão que, no seu início, foi o palco nobre onde os cidadãos mais qualificados davam o seu contributo para a construção de uma sociedade mais qualificada, é hoje, muitas vezes, o circo onde, a pretexto dos cinco minutos de fama, ganham espaço os reality show onde os intervenientes se despem da sua privacidade mais intima e, com um sorriso nos lábios, violam a sua própria dignidade. São muitas vezes o exemplo vivo da degradação a que conduz o inefável desejo de ser conhecido e o único critério é a conquista do horário nobre mesmo que fruto do aviltamento da Pessoa.

É sobre esta contraposição entre duas formas diferentes de viver a relação com os outros que cada um de nós tem a obrigação cívica de se pronunciar e optar.

José Santos Cabral

domingo, 18 de agosto de 2013

Autárquicas - a festa da cidadania


Diário de Coimbra, 18.ago.2013

É lindo de ver – sem ironia, e problemas financeiros à parte – a proliferação de “festas do concelho” e respetivas tasquinhas em vésperas de eleições autárquicas, continuando a fazer jus à sabedoria romana panis et circenses ludi, ainda que tal sabedoria tenha levado à ruina do Império... Mas que querem?! Gosto do fervilhar das eleições autárquicas. É a política próxima do cidadão comum, que mistura numa mesma caldeirada festiva e multicolor tanto gestos abnegados de entrega à comunidade quanto os mais insondáveis egoísmos e as mais estranhas querelas pessoais. Tal como acontece na vida de cada um de nós! Permitam-me, aliás, reforçar desde já esta ideia de que não podemos pedir aos atores políticos mais do que pedimos a nós próprios, até porque eles estão muito mais expostos do que nós e, por isso, neles todos os defeitos pessoais se avolumam…

Isto não quer dizer que não devamos pedir mais aos atores políticos e pedir mais a nós próprios, o que é significativamente diferente. Ou seja, a necessária condescendência para com as universais fraquezas humanas não isenta, antes reivindica, uma exigência ética muito grande a quem se candidata a um lugar de exercício ordinário do poder político, seja a que nível for. Mas trata-se de uma exigência ética acreditada não tanto por uma folha limpa de erros presentes ou passados (que sempre deleitam a comunicação social e as oposições), mas sobretudo por uma luta consistente pelo bem comum, aquele bem que respeita “todas as pessoas e a pessoa toda”, numa expressão de Paulo VI a propósito do desenvolvimento, e que João Paulo II retoma a propósito, precisamente, da função política.

E não isenta também o conjunto dos cidadãos de se envolverem na causa política, seja como candidatos, seja como eleitores, cada um nos graus e modos em que as suas aptidões, capacidades e, eventualmente, os papéis sociais específicos que desempenha, o obriguem. João Paulo II, dirigindo-se aos cristãos (mas num juízo extensível a todos os cidadãos, porque o que está em causa é a construção desse bem “comum”, comum também a cristãos e não cristãos…), dizia: “As acusações de arrivismo, idolatria de poder, egoísmo e corrupção que muitas vezes são dirigidas aos homens do governo, do parlamento, da classe dominante ou partido político, bem como a opinião muito difusa de que a política é um lugar de necessário perigo moral, não justificam minimamente nem o ceticismo nem o absentismo dos cristãos pela coisa pública”.

Ora, pesem todas as deficiências – de mapa administrativo, de lideranças, de técnicos… - as autarquias, por razões de conhecimento e proximidade, são o campo por excelência do exercício efetivo desta cidadania política a que todos somos chamados. As eleições autárquicas serão sempre uma festa da cidadania, provavelmente mais do que qualquer outro acontecimento, mesmo que muitos potenciais candidatos se fiquem nas tintas e muitos cidadãos se abstenham de votar. E nós queremos participar dessa festa. Naturalmente, alguns excessos de campanha também deixarão mágoas pessoais; mas nada que em absoluto não se resolva logo a seguir, noutra festa, à volta dumas febras com um tinto na mão. É tão lindo ser-se tão humano!

Carlos Neves

domingo, 11 de agosto de 2013

Depressa e bem... com a senha B

Diário de Coimbra, 11.ago.2013

11 de julho, na Solum. Tocam a campainha. O carteiro entrega-nos uma carta registada do Serviço de Finanças. Suspiro, esperando não ter de me deslocar ao balcão da 1ª Repartição. Ainda guardo na memória as notícias recentes com relatos impressivos do caos instalado e das filas intermináveis por culpa do IMT, do IMI, do IRS ou de qualquer outro imposto.

Adepta fervorosa das lojas do cidadão, do Portal das Finanças e do centro de atendimento telefónico – que já me pouparam horas e canseiras, antes dificilmente evitadas – nunca consegui perceber a dinâmica e o funcionamento da generalidade dos balcões de atendimento da grande maioria dos serviços públicos.

Todavia, a sorte não está do meu lado. Na missiva, solicita-se que, no prazo de quinze dias, apresente os documentos que serviram de base para o preenchimento de um anexo G. Fico apreensiva, mas ainda me resta uma vaga esperança. Querendo evitar, a todo o custo, o atendimento presencial, opto por telefonar para o número de Coimbra. A resposta é perentória: devo apresentar os documentos “in loco”.

A quem me dirigir? E qual será a melhor altura?, pergunto. Não quero acreditar no que ouço. Preciso de uma senha B, mas hoje (são 11 horas) já se esgotaram (!!?). Há quem opte por chegar pelas 6 horas da manhã (repito, 6 horas da manhã) para a conseguir! Alego que, além das obrigações fiscais, tenho responsabilidades profissionais que me ocupam o tempo no horário de expediente e que me é imposto um prazo de quinze dias para regularizar a situação. Percebo que nada disso interessa e que a obtenção da senha B é indispensável.

Depois de – numa derradeira tentativa – ouvir o conselho de uma pessoa amiga, dou-me por vencida e desloco-me até ao dispensador das reclamadas senhas B. Nada feito, avisa-me um utente com simpatia: «Minha senhora, já são 10:00 horas, acabaram de extrair a última». Disciplinadamente, escolho outro dia. Sexta-feira, 18 de julho. Saio cedo de casa e dirijo-me ao estacionamento do Parque Verde da cidade. São quase 8 horas quando chego à 1ª repartição, onde aguardam, cá fora e em fila, mais de vinte pessoas. A porta está fechada e todos parecem encarar esse facto com uma naturalidade que me assusta. Um cenário deprimente, naquele parque de estacionamento assim transformado em (magnífica!) sala de espera.

Só nos abrem a porta uns instantes depois das 9:00. Consigo, finalmente, a senha B020 e entro para uma sala com dez balcões de atendimento. Preparo-me para esperar, mas, de forma surpreendente, chamam-me pelas 9:50. Sou atendida por A. F. que, de forma expedita e agradável, me informa que um imóvel herdado pelos filhos na sequência da morte de seus progenitores deve ser registado de forma diversa da que tinha sido por mim indicada. Podendo fazer essa alteração online, regresso a casa cheia de vontade de pôr um ponto final nesta saga. Não foi, contudo, fácil. Desta vez, nem o Portal das Finanças foi amigável. Para resolver o impasse foram necessários mais dois telefonemas, um deles, avisadamente, para falar com quem já tinha tratado do assunto.

Este episódio faz-me lembrar um provérbio a que a minha Mãe recorria quando desempenhávamos uma tarefa de forma atabalhoada e impaciente: «Depressa e bem ... há pouco quem». Ao que, podendo, respondíamos: «Mas, devagar e mal ... é geral».

E é para não ser muito injusta com pessoas como A. F. que, quando critico o atendimento em serviços públicos, ainda me inibo de dizer … devagar e mal … é geral.

Teresa Pedroso de Lima

domingo, 21 de julho de 2013

A Páscoa de José Dias

Diário de Coimbra, 21.jul.2013

Sabíamos que um dia teria de acontecer e que nunca estaríamos preparados para o momento da Páscoa do nosso querido companheiro e amigo José Dias.

Hoje, dia 15 de julho de 2013, data em que estas linhas começam a ser escritas, tivemos a notícia.

Gostaríamos de conseguir encontrar as palavras de consolo para a Fátima, que conjugou com ele a vida, para a Renata e David, frutos do seu encontro de amor bem como para a mãe e irmãos. Também gostaríamos de ser capazes de consolar todos os amigos e de nos consolar a nós mesmos.

O José Dias deixa-nos imensa saudade da sua amizade envolvente, do seu caráter indomável, da sua humildade cativante, do seu profundo e abrangente conhecimento científico e da sua inovadora sabedoria.

O José Dias cria-nos uma enorme perplexidade quanto a sermos capazes de dar continuidade à sua herança relacionada com o estudo e divulgação do pensamento social da Igreja.

O José Dias responsabiliza-nos e impele-nos ao compromisso eclesial com empenhamento individual e comunitário à luz do seu exemplo de amor à Igreja, criticamente construtivo.

O José Dias recorda-nos, permanentemente, a radicalidade do Evangelho e que toda a ação da Igreja se faz “em nome de Jesus Cristo”, como quis significar com o título que deu ao seu livro para formação básica em Doutrina Social da Igreja (DSI).

O José Dias demonstra-nos como a substância do saber e do compromisso real se sobrepõem aos títulos académicos.

O José Dias ajuda-nos a perceber o verdadeiro alcance e sentido de qualquer “acidente de percurso” (como ele chamou à sua doença) na nossa caminhada para a plenitude do Reino de Deus, à semelhança de Job.

O José Dias ensina-nos a louvar a Deus por todas as coisas boas que nos dá ao longo da nossa vida e a pedir, em vez da cura, capacidade para aceitar a Sua vontade.

O José Dias mostra-nos como e quando nos devemos recolher e guardar (“encostar às boxes” como ele dizia), sem capitulação, mas compreendendo a nossa finitude.

O José Dias combateu o bom combate, percorreu o seu caminho e guardou a fé, foi consequente e coerente no compromisso familiar e na atividade social e eclesial.

O José Dias é e continuará sempre a ser uma lição de vida para todos os que tiveram o privilégio de o ter como amigo ou de ter privado com ele, mesmo que por breve momento.

O José Dias é o irmão que parte, mas fica connosco para sempre.

Os membros da Comissão Diocesana Justiça e Paz (CDJP) partilham, cada um a seu modo, estas certezas e emoções, sentem a perda o seu expoente e impulsionador, mas esperam, a par da Diocese de Coimbra, dar continuidade ao trabalho encetado.

Carlos Paiva

domingo, 14 de julho de 2013

Os tempos que correm




 Diário de Coimbra, 14.jul.2013
Os partidos políticos são uma das principais formas de organização dos cidadãos e, em princípio, os ideais que estão inscritos na sua matriz genética convocam para as formas mais nobres de conceber, e realizar, o interesse comum. Sendo um poderoso instrumento de domínio social os partidos são, também, o meio adequado para a afirmação duma classe politica que, através do controle do aparelho do Estado, impõe a sua visão sobre o modelo de construção da sociedade.

Porém, cada vez mais o termo político assume um significado polissémico que abrange realidades distintas em que coexistem o sentido mais nobre da palavra e os outros. Neste domínio, num ensaio de 1927 em que está patente o seu fulgor intelectual, Ortega y Gasset estabelece uma tripartição dos governantes que se podem classificar como estadistas, como escrupulosos ou como pusilânimes. O homem de Estado, afirma aquele Autor, deve ter o que chama de "virtudes magnânimas", e não as "pusilânimes", sendo certo que aquelas causam muitas vezes a incompreensão derivadas da sua preocupação com o longo prazo e, consequentemente, toma decisões impopulares a curto prazo, enquanto a maioria dos políticos preocupa-se com resultados imediatos de suas ações. Sinteticamente o Estadista preocupa-se com a próxima geração e o político com a próxima eleição.

Infelizmente as últimas décadas remeteram para os arcanos da história a regra fundamental de que os políticos só têm assegurada sua legitimidade se, e na exacta medida, em que procuram decidir de acordo com o interesse da comunidade. Aquilo que é uma evidência da vida democrática, e que já para os filósofos gregos era uma regra básica na vida da “polis”, está hoje, muitas vezes subvertida pela forma de exercer o poder politico.

Na verdade, são cada vez menos aqueles que, pela dedicação à causa pública, prescindem de ocupações privadas, bem mais lucrativas, e aceitam o desafio de tomar nas mãos a condução do destino colectivo. Pelo contrário a opção pela política é muitas vezes subjugada a interesses que não são nem públicos nem admissíveis ética e legalmente. Em tais casos, o altruísmo político transforma-se numa nova doença do regime democrático que é o “parasitismo politico” e que, na sua forma extrema, implica a “patrimonialização privada” do interesse publico

À medida que cada vez mais actores políticos são o fruto de uma carreira formatada nas juventudes partidárias, sem qualquer aval de uma vida profissional de valia, maior é o perigo de agentes sem valor, e sem valores, utilizarem o Estado como se este fosse o condomínio privado duma classe que, segundo as alternâncias eleitorais, vai sendo gerido alternadamente pelos partidos do poder. A ocupação de cargos públicos em vez de ser o lugar nobre da realização da “res publica” transforma-se num objectivo da luta política, constituindo a recompensa do vencedor destinada ser entregue aos que colaboraram na vitória.

Esta constatação não é o mero fruto do sonho de uma noite de Verão mas, infelizmente, a constatação de um encadear de situações que, ao longo de anos, se tem verificado no nosso País. O lado negro do nosso regime democrático mostra-nos um catálogo de situações em que converge todo o tipo de práticas que, como maior ou menor ilicitude, despontam no espectro da patrimonialização do regime e da captura do Estado por interesses privados.

A falta de preparação e convicções de parte das elites políticas evidencia-se hoje através de uma outra doença evidenciada pela efervescência dos dias que passam. Na verdade, a ausência duma perspectiva de Estado sobre os problemas com que nos defrontamos conduz a decisões em que é patente a irresponsabilidade politica. Esta é tanto mais evidente quanto opções com uma profunda consequência no nosso viver colectivo são tomadas de ânimo leve sem qualquer ponderação sobre os seus efeitos.

Quando constatamos a forma como ao longo de décadas se distorceu o sentido de Estado uma das maiores perplexidades que nos invade é o motivo da deserção de políticos que professem esse sentido mais nobre da Política. Porém, tal constatação não foca sobre algo que nos seja alheio e só acontece porque, ao longo dos anos, pactuamos com a mediocridade e com a indigência moral de alguns responsáveis, premiando quem devia ser penalizado. Perante a História, ao abdicarmos da exigência ética na avaliação dos maus governantes, tornamo-nos cúmplices dos seus actos.

Por contraposição aos dias que passam vêm-nos à memória as palavras com que, noutro tempo, Sá de Miranda se referia aos que tinham por mister olhar os assuntos do Reino: Homem de um só parecer; De um só rosto, uma só fé; De antes quebrar que torcer . Ele tudo pode ser; Mas de corte homem não é. (Carta de Sá de Miranda a D. João III)
José Santos Cabral

domingo, 7 de julho de 2013

Os casos de rotulagem enganosa

Diário de Coimbra, 7.jul.2013

Por favor, não me reduzam os casos dos hamburgers de carne de cavalo rotulados como de carne de vaca ou dos ultracongelados de peixe-caracol rotulados como de bacalhau a um caso de saúde pública (que não o terão sido), ou a um crime económico (que o serão) e menos ainda a uma mera “irregularidade” (sic). Estamos a um nível muito mais profundo, ao nível da fronteira última entre a verdade e a mentira, ao nível de um dos fundamentos éticos mais consistentes e estruturantes das sociedades humanas: a verdade. Um nível tão profundo que, noutro âmbito de reflexão, Bento XVI, na sua última encíclica, escreve sem meios-termos: para a Igreja, o serviço à verdade é irrenunciável.

O comércio, enquanto atividade, sem pôr em causa as pessoas, desviou-se daquele padrão de que “o cliente tem sempre razão”, para um descarado desrespeito pelo cliente: habituou-se a definir ele mesmo quais são as nossas necessidades, a vender-nos produtos de qualidade sofrível, a inflacionar os preços para tornar os saldos apetecíveis, a vender-nos “marcas” por produtos, a instrumentalizar publicitariamente tudo e todos, a levar-nos a assinar contratos de letra miudinha que ninguém lê, a obrigar-nos a comprar dois rolos de fita-cola quando só precisamos de um ou cinco adaptadores de tomadas elétricas para os diferentes países do mundo quando precisamos só de um para Inglaterra! E nós, enquanto consumidores, temos “engolido” tudo isto, com muita indiferença, alguma reclamação mais ou menos inconsequente aqui ou ali, e alguns impropérios descarregados no seio familiar para descarga da frustração quando chegamos das compras e nos apercebemos mais nitidamente de quanto não fomos respeitados. Nesta prática instalada, a rotulagem mentirosa é apenas mais um passo; mas há passos que correspondem a ruturas absolutas entre o sim e o não. A rotulagem enganosa é uma opção radical pela mentira, sem gradualidades ou atenuantes. Por isso, independentemente de contextos ou de consequências, deve ser também condenada em absoluto, sem gradualidades ou atenuantes.

A verdade não é utilitarista. Mas, dito isto, até do ponto de vista utilitarista o comércio só tem a ganhar com a verdade. Por motivos complexos, o comércio exagerou as capacidades consumistas das pessoas. Os centros comerciais e as grandes superfícies replicaram-se e multiplicaram-se, matando o pequeno comércio e matando-se umas às outras. Isto no momento em que a abertura dos mercados ao nível planetário provocou, pelo menos nesta fase, desequilíbrios também eles planetários. Acresce a crise social-financeira, com o comum dos cidadãos sem dinheiro para consumir. A situação tornou-se crítica: o comércio, quase todo ele, vive com a corda na garganta. Até dói entrarmos nalguns espaços comerciais e termos a sensação de que eles não fazem caixa no final do dia para pagar a luz. Pois bem, se a estes fatores somarmos clientes desconfiados de que estão a ser enganados por rótulos falsos…, o que esperam os comerciantes vender?! Os comerciantes precisam dos consumidores do seu lado; e isso só é possível se entre ambos houver relações de verdade.

Carlos Neves

domingo, 30 de junho de 2013

Repensar a solidariedade


Diário de Coimbra, 30.Jun.2013

Fazer um comentário sobre o mundo que nos rodeia está a tornar-se um exercício repetitivo e pouco animador. Somos inundados por exemplos negativos enquanto os positivos se perdem no emaranhado da espuma dos dias. Procuramos exemplos de gestos libertadores e parece que não se encontra nada. Temos a corrupção que parece atingir todos os sectores sociais, incluindo o mundo da política, daqueles que legislam e nos governam. Temos uma justiça que se arrasta penosamente. Temos gestores que recebem por ano milhares de vezes o salário mínimo. Temos cada vez mais gente desempregada. Apetece gritar “Parem. Olhemos uns para os outros”. E perante este terreno desolador, fazer um comentário sobre os valores parece atirar-nos para fora deste mundo. E perguntamo-nos se não estaremos a falar para um outro mundo ou de um outro mundo, se não serão palavras perdidas, se vale a pena. Certamente que vale.

Hoje, já é comum ouvir falar-se de solidariedade. Contudo nem sempre o conteúdo é tão solidário como a palavra indica. É certo que há milhões de gestos anónimos ou institucionais que procuram melhorar as condições de vida angustiantes de centenas de milhares de pessoas. Mas que solidariedade é esta que nos permite passar despreocupados por um sem-abrigo a dormir no vão de uma montra de um qualquer banco? Que solidariedade é esta que impõe austeridades escandalosas aos países mais pobres e cria condições de empréstimo muito mais favoráveis para os mais ricos? Efectivamente, como diz A. Gusenbauer, “a Europa vive refém de um “paradoxo imoral", segundo o qual não se pode interferir nos mecanismos de mercado para salvar as pessoas, mas pode-se fazê-lo para salvar a banca”.

A solidariedade não é nada disto, nem sequer os impulsos generosos que nos assaltam a alma pontualmente perante uma tragédia ou sazonalmente segundo o ciclo festivo do ano. João Paulo II foi um grande apóstolo da solidariedade, enriquecendo o seu conteúdo. Viveu-a e pregou-a tão intensamente que alguns o acusaram de estar a fazer propaganda do sindicato polaco Solidarność (Solidariedade). O que ele quis fazer foi aprofundar este conceito, pois, como diz o papa Francisco, “a solidariedade não é só uma atitude, não é uma esmola social, mas um valor social”. Há, portanto, que repensá-la “não apenas como simples assistência aos mais pobres, mas como uma revisão global de todo o sistema, como busca de caminhos para reformá-lo e corrigi-lo de modo coerente com os direitos fundamentais da pessoa, de todos as pessoas”.

A solidariedade não é, pois, um simples sentimento de compaixão vago ou um enternecimento superficial, mas “a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum, ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos”. Não é, pois, uma atitude momentânea mas uma preocupação permanente, um estilo de vida que deve marcar as nossas decisões e as nossas acções.

A solidariedade faz-nos crescer em conjunto. Faz-nos sentir e torna-nos componentes de um mesmo “sólido”, de um mesmo bloco, em que todos os constituintes, embora diferentes, são iguais. Torna-nos uma família onde todos procuramos superar as dores e sofrimentos dos seus membros. Por isso, o exercício da solidariedade impõe regras a todos, sempre condicionadas pela centralidade das pessoas e não do capital ou do sistema bancário. Só assim, seremos capazes de “ver o «outro» — pessoa, povo ou nação — não como um instrumento qualquer, de que se explora, a baixo preço, a capacidade de trabalho e a resistência física, para o abandonar quando já não serve; mas sim, como um nosso «semelhante», e «auxiliar», que se há-de tornar participante, como nós, no banquete da vida, para o qual todos os homens são igualmente convidados por Deus” (João Paulo II, Sollicitudo rei socialis, 39).

Este é o tempo de solidariedade a sério, porque sem solidariedade não há sociedades justas.

José Dias da Silva

Sim, nós podemos!

Diário de Coimbra, 29.dez.2013 Temos a noção de que atravessamos tempos únicos em que os desafios intranquilos duma nova era da Civil...