domingo, 23 de dezembro de 2012

Apenas um grito radical por justiça e amor


Diário de Coimbra, 23.dez.2012

Praticamente esgotadas as crónicas natalícias sobre a família, as crianças, a solidariedade, as memórias da infância, as estatísticas de consumo, a consoada dos VIP e as tradições etnográficas, permiti que me aventure pelo enfoque teológico, naquilo que tem de mais linear: a incarnação de uma das pessoas de Deus, na região da Palestina, vão decorridos mais de 2000 anos.

Afinal, todo este misto natalício de sentimentos, emoções, memórias e aspirações, caldeado de luzes e agitação, apenas desvela o que a sensibilidade pós-moderna coloca conscientemente entre parêntesis: que a vida reivindica ser mais do que lhe concedemos. O nada sartreano - esse imenso buraco existencial que o homem e a mulher se sentem – acompanha o homem desde quando este se reconhece como tal, e as religiões – de todos os tempos e de todas as formas – apenas procuram ser-lhe uma resposta de “salvação”.

Porque é de “salvação” que se trata: salvação das condições adversas físicas e materiais, salvação das contradições éticas e morais dos indivíduos, salvação das estruturas coletivas que esmagam em vez de servir, salvação do sentido último da existência, salvação do escuro que faz longe de Deus e dos outros companheiros de jornada.

Deus mergulhou neste mar humano assim tão precisado dele; mas vinha esvaziado dos seus poderes divinos, longe de honras humanas, nu. Apenas com a força daquela palavra que racha a direito entre a mentira e a verdade, entre o sim e o não, entre o ódio e o amor. Nada mais. Apenas um voz, um grito radical por justiça e amor, somado a milhões e milhões de outras gritos em todos os tempos e lugares da história. Mas nós soubemos – soubemos porque vimos com os nossos olhos e tocámos com as nossas mãos, numa manhã de Páscoa – que esse grito incontido do Deus-connosco, na sua sede de justiça, desaguará no pleno sentido de toda a História em Deus eterno. As nossas lutas fazem sentido. A Justiça e a Paz, por fim, vencerão.

Deus aproximou-se de nós, por amor de nós. Mas aproximou-se sem qualquer laivo de poder arbitrário, de poder exterior, de magia. Aproximou-se, quer dizer, deslocou-se para o nosso enfoque, desceu para o nosso plano, igualou-se a nós. Fala e atua com sabedoria, aspirações, gestos e sentimentos humanos. Mas por mais bebé que ainda seja nas palhas da manjedoura de Belém, esse homem, tão humano assim, é o Deus que mata a sede a todas as nossas necessidades de salvação.

Claro que é uma questão de fé. Mas, bem vistas as coisas, o que é que na vida não é uma questão de fé?! Feliz Natal, pois, para todos nós.

Carlos Neves

domingo, 4 de novembro de 2012

Mecanismos perversos


Diário de Coimbra, 4.nov.2012

Hoje já ninguém terá dúvidas: pese o excessivo número de casos de pequeno-burguesismo falido e o efeito de mimetismo dos que aparecem como “grandes” no marketing do estatuto, não foi o despesismo do cidadão comum que conduziu o país à crise económico-financeira – o povo é sensato. O que conduziu o país para este caos passa por um conjunto de mecanismos perversos que alguns poucos foram paulatinamente instalando e usando em seu favor com uma ganância desmedida, e que entrecruzam especulação financeira, clientelismo partidário, corrupção administrativa, negócios imorais e outros quesitos do mesmo teor. A rede fecha-se, por fim, por detrás de uma legislação dúbia que amarra os braços à Justiça.

Na doutrina social católica, a tradução desta situação expressa-se no conceito de “estruturas de pecado”. Curiosamente, talvez seja o conceito que mais se afirmou ao longo do papado de João Paulo II, partindo da sua quase negação até acabar como um critério chave para o aferimento moral de todo o terceiro milénio! O caso português, a política europeia, a economia mundial, provam-no à saciedade: há um mal objetivo que nasce das opções das pessoas e que, replicado em milhões de interações, cria estruturas que coartam a liberdade, fomentam os egoísmos, esmagam as legítimas aspirações à realização humana pessoal e coletiva e dividem os povos e as sociedades em exploradores e explorados, em opulência e miséria, contra – para os crentes - o desejo expresso pelo próprio Deus, segundo o livro bíblico do Deuteronómio: “no meio de ti não haverá pobres”. (E, já agora, diga-se, em abono da verdade, que nem sempre quem faz o papel de “explorado” está na margem dos pobres!).

Individualizar as culpas nesta rede é tarefa impossível; até porque, tirando alguns raríssimos casos de ilegalidade pura, os sistemas funcionam como um todo, tornando praticamente indiscernível a responsabilidade de cada um. Neste contexto, as leis contra a corrupção ou o enriquecimento ilícito (?!) acusam o problema, mas são impotentes para o resolver.

Urge, pois, corrigir os mecanismos perversos herdados do passado e evitar que outros se criem. Por isso, o acento da tarefa política, legislativa e penal não pode mais ser dirigido (exclusivamente) ao indivíduo, mas tem que ser dirigido às estruturas; e ainda que a economia seja urgente, o centro da atenção política tem que ser colocado na salvaguarda dos valores do bem comum, colocando-os à frente dos interesses individuais e corporativos. Mesmo que seja – e necessariamente vai ter que ser – contra os “direitos adquiridos” por algumas minorias, em favor dos direitos a adquirir pelo conjunto dos cidadãos, entre os quais o direito a não ser pobre.

Carlos Neves

domingo, 23 de setembro de 2012

2012-set.-23
Ref.ª: 2.6
Política e Verdade
Uma das questões fundamentais no exercício da política agora, como sempre, é a sua relação com a Verdade. A tensão entre estas duas realidades, oscilando entre a convergência e a total dissonância, foi patente ao longo da História e se, para alguns, o valor da Verdade superou o apego à própria Vida já para outros são os objetivos do Estado que definem onde, é até que ponto, a Verdade é necessária.
O direito a uma Informação verdadeira, suscetível de fundamentar escolhas e juízos de valor sobre os factos relevantes na nossa vida coletiva, é uma exigência que deriva do simples facto de sermos cidadãos num Estado em que o poder é exercido em nome de todos. A legitimidade política radica, também, na forma como quem exerce o poder assume a Verdade na relação com aqueles que representa. Excetuando aquilo que, pela sua natureza, não pode ser lançado no domínio público, existe uma Verdade a que todos temos direito.
À obrigação de quem exerce o poder de o fazer com Verdade corresponde a dever que incide sobre cada um de nós de se informar, isto é, o exercício de uma cidadania ativa que capacite para intervir na formação das decisões que a todos tocam. Muitas vezes prescindimos desse esforço de procura, confiando apenas na mensagem que é transmitida de forma mais, ou menos interessada. Preferimos que os outros pensem por nós e revoltamo-nos quando descobrimos que a nossa confiança foi malbaratada.
Nos dias que correm a separação entre Verdade e Política é, muitas vezes, um dado adquirido, e torna-se o eixo de uma visão parcial da democracia, que opera uma renúncia consciente à Verdade em favor das opiniões de momento. Habituamo-nos a formatar a nossa forma de pensar de acordo com comentadores de serviço situados ao longo do espetro político, servindo amos que desconhecemos, e descuramos a nossa obrigação de procura da Verdade e de falarmos pela nossa cabeça. A promessa de amanhãs radiosos é mais sedutora que a fria realidade.
O próprio poder é, muitas vezes, exercido sem ter por base o interesse publico, ao sabor das opiniões que se consideram dominantes sejam estas fruto de um processo esclarecido, ou da manipulação dos “media”, e oscilando conforme os interesses que protegem. Não se questiona sobre a Verdade inscrita naquelas opiniões pois que o importante é que elas interpretem uma pretensa vontade maioritária, qualquer que esta seja.
O ator político vai, muitas vezes, ao encontro de anseios e expetativas do cidadão comum, privilegiando o encontro com a vontade momentânea, mas sabendo no seu íntimo que alimenta a utopia. Na verdade, a posição que colhe maior aplauso não é necessariamente aquela que corresponde ao interesse comum e, porventura, é apenas aquela que foi possível encontrar sem crispação. Se é certo que existe neste acolher da voz da maioria um elemento de sabedoria que as democracias contemporâneas apuraram durante a luta contra os totalitarismos do século XX igualmente é exato que a mesma comporta o risco do relativismo da Verdade.
Acresce a este quadro uma tendência crescente, revelada pela teoria e pela prática política, para conformar a decisão politica com aquilo que é a gestão das expetativas, abstraindo de valores e erigindo como critério a necessidade de tomar, ou de conservar, o poder. Desse modo, parece que a política se exclui do próprio exercício da Verdade, deixando assim a cada cidadão a tarefa de escolher a sua “própria” verdade, omitindo que muitas vezes o que está em jogo são valores fundamentais que vão muito mais além das meras convergências táticas.
Relega-se, assim, a mesma Verdade para o domínio das opções individuais excluindo o seu valor universal. Porém, muito para além da combinação fugaz de interesses ou estratégias e da unanimidade momentânea, existem valores que estão na génese da sociedade politica e valem para todos nós, traduzindo uma forma de ser e uma forma de estar que construiu uma Nação ao longo de séculos.
Neste momento em que o nosso futuro e o dos nossos filhos está condicionado pelas decisões políticas que foram tomadas ao longo de anos aonde está a Verdade sobre a forma como aquelas foram tomadas? Aonde está a Informação necessária para que cada um de nós formule os seus juízos de valor sobre a forma como se geraram vontades políticas que a todos oneram?
O Direito à Verdade, nomeadamente na Politica, integra o património comum e a coragem para a afirmar perante os Cidadãos, por muito que custe, é a diferença que vai entre o politico e o Estadista.

José Santos Cabral
Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz
(Publicado no Diário de Coimbra de 2012-set.-23)

domingo, 16 de setembro de 2012

2012-set.16
Ref.ª: 2.6
Traficantes das desgraças humanas
Numa rápida visita à aldeia da infância reencontrei-me com uma grande e velha figueira; sobretudo uma generosa figueira, tal a abundância dos frutos! Nessa contemplação, invadiu-me insistentemente a evocação de uma das mais admiráveis homilias de toda a História da Igreja, de S. Basílio Magno (séc. IV): “imita a terra, ó homem. À sua semelhança produz frutos, mas não te reveles menos bom do que uma coisa sem vida. Pois certamente não é para o seu próprio proveito que ela produz frutos, mas para o teu serviço”.  E pensei em quanto a partilha gratuita de bens, tão generosa como a da figueira, pode ajudar a sair da crise! De duas maneiras: no imediato, minorando as necessidades das pessoas que foram atiradas para graves situações de pobreza; a mais longo tempo, criando uma cultura nova, de partilha fraterna e liberalidade pessoal e coletiva no uso dos bens materiais e imateriais de que as pessoas e as sociedades dispõem. Nem será por acaso que é precisamente depois de rebentar a crise atual que a Doutrina Social da Igreja, sem descurar a luta pela justiça, releva para primeiro plano, como valor fundamental da vida económica e social, à escala global, a… gratuidade: “o desenvolvimento económico, social e político precisa, se quiser ser autenticamente humano, de dar espaço ao princípio da gratuidade como expressão de fraternidade”. (Bento XVI). Aliás, no próprio governo dos Estados surgem sinais de forte confluência com este princípio, de que é exemplo a recente celebração de um Ano Europeu do Voluntariado (2011).
Sem descurar a luta pela justiça! Aliás, já Basílio de Cesareia, na mesma homilia, não se limitava a exortar à partilha de bens; denunciava também, com toda a energia, o egoísmo dos que acumulam riquezas, aumentando assim a miséria dos pobres. Nalguns passos parece mesmo entrar pelas causas da nossa crise adentro: “O que não fazes pelo ouro!?  O trigo torna-se ouro para ti, o vinho em ouro se converte, mudam-se as lãs em ouro. Toda a mercadoria, todo o pensamento te levam ao ouro. O próprio ouro se engendra a si mesmo, multiplicado em muito maior quantidade pelos juros”. E noutro passo: “Não imponhas maior preço às coisas necessárias. Não suportes a carestia do trigo, sem abrires o celeiro. Fome por causa do ouro é inadmissível, bem como a indigência de muitos causada por tua abundância. Não te tornes um traficante das desgraças humanas”. E quase a terminar: “que mal faço, diz o rico, guardando o que é meu? De que modo, diz-me, é teu? Donde o tiraste, tomando-o para teu sustento? Não saíste nu do ventre? De novo não voltarás nu para a terra? Donde vêm só para ti as coisas terrenas?”
Perdoe-se-me a proliferação de citações, mas não resisti a partilhá-las aqui convosco. Em parte, devo confessar, pelo orgulho que sinto em de algum modo me considerar um remoto descendente desta plêiade de pensadores!; noutra parte, porque cada dia me apercebo mais mergulhado numa sociedade onde, a par de tanta generosidade, sobretudo de gente simples e pobre,  proliferam e se multiplicam os  “traficantes das desgraças humanas”.
Carlos Neves
Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz
(Publicado no Diário de Coimbra de 2012-set.-16)

domingo, 9 de setembro de 2012

2012-set.-09
Ref.ª: 2.6

AS REGRAS ÁUREAS

Há tempos a senhora Merkell pressionava para que houvesse uma regra de ouro para impedir défices excessivos, tornando inconstitucional a ultrapassagem dos 3%. Perante várias reações negativas, o debate amornou. Mas, na Festa do Pontal, Passos Coelho voltou a referir-se à ideia. Não sei se vai haver novo debate, mas gostaria de propor uma regra de ouro alternativa.
Mesmo muitos não crentes conhecerão a parábola dos “trabalhadores da vinha”, contada por Jesus. Ela é uma denúncia corrosiva também do atual sistema de organização social e da mentalidade que enforma a atuação de muitos de nós. E ironicamente contém em si a solução para a atual crise. Quiséssemos nós pô-la em prática.
A parábola resume-se em duas palavras. O proprietário de uma vinha passa, às nove da manhã, pela praça, e contrata todos os que lá estão, propondo-lhes um denário de salário. Ao meio-dia, volta à praça e contrata os que encontra, dizendo-lhes que pagará o que for justo. Repete as idas à praça, levando os trabalhadores que, entretanto, se foram juntando. No fim do dia, chama os últimos e paga-lhes um denário, o que enche de satisfação os que foram contratados mais cedo. Mas, para sua grande surpresa, este patrão paga um denário a todos. Quando o criticam, apenas responde que cumpriu o que estipulara. Uma nota informativa: um denário era considerado a quantidade mínima diária para se viver com dignidade.
Quase todos nós consideraremos este patrão injusto, pois vai contra os nossos padrões mercantilistas e a nossa insensibilidade à solidariedade como estilo de vida. Mas olhemos com mais pormenor. Este patrão atuou, tendo como prioridade máxima a centralidade da pessoa. O que se traduziu em duas atitudes que hoje as sociedades não têm nem querem ter e que são indispensáveis para superar esta e outras crises.
Primeira: procurou arranjar trabalho para todos. Por isso foi passando ao longo do dia pela praça. Hoje o desemprego é apenas uma preocupação pouco mais que teórica da sociedade e dos seus dirigentes, mas que João Paulo II denunciou como eticamente ilegítimo: “A obrigação de ganhar o pão com o suor do próprio rosto supõe, ao mesmo tempo, um direito. Uma sociedade onde este direito seja sistematicamente negado, onde as medidas de política económica não consintam aos trabalhadores alcançarem níveis satisfatórios de ocupação, não pode conseguir nem a sua legitimação ética nem a paz social” (Centesimus annus (CA), 48).
Segunda: pagou a cada um, independentemente do tempo de trabalho, o que lhe era indispensável para poder viver segundo o padrão de dignidade como pessoa e como cidadão. E aqui tocamos num ponto-chave. É que cada pessoa, independentemente dos seus talentos e da sua produtividade material, tem direito aos bens e dons da Terra, que são para uso de todos “sem excluir nem privilegiar ninguém” (CA 31). Nenhum de nós é dono do que é “seu”; é apenas administrador dos bens que são de todos, como afirmam os “Padres da Igreja”. Por isso, o Concílio Vaticano II escandalizou alguns cristãos (alguns, porque os outros não o leram!), ao afirmar que “aquele que se encontra em extrema necessidade tem o direito de tomar, dos bens dos outros, o que necessita” (Gaudium et Spes (GS), 69). Podemos aplicar a mesma questão às nações: foi mérito dos alemães terem a zona do Ruhr ou dos noruegueses possuírem lençóis de petróleo? Não são estes bens de todos, dos quais alemães e noruegueses são apenas administradores?
Perante tudo o que acabei de referir, não seria mais justo, em vez da regra de ouro orçamental de Merkell, uma outra regra de ouro constitucional, a obrigatoriedade de cada cidadão ter sempre garantido o mínimo para viver com dignidade?
Para isso, a prioridade não deve estar no denário, mas na pessoa, que para viver deve ter acesso a esse denário. O obstáculo não é o dinheiro, porque, para que todos tivessem esse mínimo, bastaria decerto uma percentagem irrisória do PIB. O problema está na cabeça e nos egoísmos nacionais e pessoais, para quem o outro – pessoa, cidadão, nação – nada conta.
Seja ou não utópico, é a isto que obriga considerar a pessoa, cada um e todos, como “o princípio, o sujeito e o fim de todas as instituições sociais” (GS, 25). Sem isto, os sistemas financeiros, económicos, políticos serão geradores de injustiças e de violações dos direitos humanos.
José Dias da Silva
Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz
(Publicado no Diário de Coimbra de 2012-setembro-09)

domingo, 2 de setembro de 2012

2012-set.-02
Ref.ª: 2.6
Compotas de praia
Todos os anos, no dia 1 de agosto, a azáfama era intensa. A mudança para a casa da praia – que na verdade era um palheiro arrendado, com mobílias giríssimas mas sem qualquer tipo de equipamento eletrodoméstico (nem o fogão funcionava …) – era uma odisseia que implicava o esforço de todos. Como a família era numerosa, além do substituto do citado fogão, era necessário transportar um frigorífico, vários divãs e cadeiras de lona, quilos de lençóis e toalhas, o caixote dos jogos que acompanhava o da literatura de veraneio (que incluía obrigatoriamente alguns álbuns do tio patinhas & afins, números mais que desatualizados das Seleções do Reader’s Digest e os incontornáveis romances policiais da coleção Vampiro), mercearias (na altura existia apenas um supermercado na cidade mais próxima), louças e talheres, para além do pequeno saco de viagem a que cada um tinha direito para arrumar os seus pertences. Tudo isto era carregado numa camioneta de caixa aberta onde o motorista era apoiado por um dos rapazes mais velhos, enquanto a família era conduzida pelo Pai em duas levas. Na primeira, os mais crescidos, com o objetivo de limpar a casa, descarregar a camioneta e arrumar toda a tralha, enquanto a segunda se destinava à Mãe e aos mais novos.
O primeiro dia na praia passava a correr e quase nunca tínhamos tempo para ir até ao mar. Os restantes tinham uma rotina muito semelhante: depois do pequeno-almoço tomado, os mais velhos (nem todos …, os notívagos voluntariavam-se para ajudar a Mãe a preparar o almoço) seguiam para o areal com os mais pequenos equipados com o respetivo balde e acessórios, bem agasalhados e de chapéu enterrado na cabeça por causa do nevoeiro matinal e da baixa temperatura própria das praias onde as más-línguas dizem que «o inverno passa o verão». A hora do banho era invariavelmente por volta do meio-dia, perante o ar vigilante do Pai. Frequentemente, era mais banho de areia que outra coisa, daí a utilidade dos baldes para o «duche final». Os mais crescidos, gelados com os salpicos dos «chapinhanços» anteriores, mergulhavam de seguida sem hesitação nas águas batidas e frias, certos de que havia sempre um jogo de ringue para aquecer os friorentos. Depois do almoço, a tarde corria lentamente à sombra do toldo da barraca, onde os bebés dormiam a sesta. A leitura de revistas, o jogo do prego e a conversa pachorrenta e sem rumo são prazeres que recordo com imensa saudade. Ao fim da tarde, quando a maré estava baixa, passeávamos à beira-mar onde conchas e búzios eram recolhidos para as «compotas da praia» – frascos de vidro cheios daquelas preciosidades que decoravam a cozinha durante o inverno: «para não termos tantas saudades do mar!» – dizia a Mãe. Se o tempo se estragava ou a nortada tornava insuportável a permanência no areal, consolávamo-nos com deliciosas bolachas americanas e passeios de bicicleta.
Finalmente, quando os dias começavam a ficar mais curtos e os morenos exibiam bronzeados invejáveis (enquanto os louros apenas se podiam gabar de algumas sardas), regressávamos para recomeçar as aulas. Este era, para mim, um período igualmente intenso e divertido. O cheiro dos cadernos novos, dos lápis e das borrachas invadiam a casa. Como os livros passavam de irmão para irmão ou eram partilhados, a escolha do papel que os ia forrar era cuidadosamente negociada e as mazelas provocadas por utilização negligente penalizadas. Os horários eram afixados num placard e a participação nas tarefas diárias discutida em assembleia familiar.
Mais tarde, muito mais tarde, percebi que os benefícios destas temporadas passadas à beira-mar se colhem a vários níveis: compreender, por um lado, que descansar não implica forçosamente destinos exóticos em cenários de agência de viagem; apreciar, por outro, o quão retemperador pode ser um par de semanas passadas numa rotina simples de praia; finalmente, sentir o quanto importante é ter-se, efetivamente, férias, um período em que, calmamente, beneficiando dos ares marítimos, se recuperam forças, fortalecem relações e, numa agradável quietude, nos começamos a preparar para o que, para muitos de nós é, na verdade, o princípio de um novo ano – e que se quer, naturalmente, repleto de desafios, de afazeres e novidades…
Teresa Pedroso de Lima
Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz
(Publicado no Diário de Coimbra de 2012-setembro-02)

domingo, 26 de agosto de 2012

2012-agosto-26
Ref.ª: 2.6

Orçamento de Estado para 2013 – Desafios a lançar aos cidadãos de boa vontade.
Aproxima-se a data em que o Governo terá de entregar na Assembleia da República, a proposta de Orçamento de Estado para 2013.
Todos sabemos que se trata de um documento muito relevante dado que este deverá contemplar, entre outros, as receitas a arrecadar e as despesas a incorrer pelo Estado, para cada uma das suas áreas de intervenção.
Tendo em conta o contexto socioeconómico nacional e internacional em que vivemos e os objetivos que derivam do programa de assistência financeira negociado com a “Troika”, não é difícil reconhecer de que se trata de um desafio complexo com que o Governo e Assembleia da República estão confrontados.
Um fator relevante que vai condicionar, sem dúvida, a elaboração do Orçamento para o próximo ano, é que o valor do défice não deve superar o limite de 3%, tal com o está previsto no acordo com a “Troika”. Todos sabemos, as dificuldades que se estão a fazer sentir no corrente ano, para que o valor do défice não ultrapasse os 4,5%.
Não é difícil desde já antecipar que num contexto como aquele que se perspetiva para 2013 com a atividade económica a continuar em recessão, pelo que as receitas daí provenientes não vão aumentar, um dos principais desafios que se colocará ao Governo será o de identificar medidas que conduzam à redução do volume de despesas.
Neste contexto, parece-me de inteira justiça que o Governo desenvolva uma campanha visando recolher dos cidadãos de boa vontade, sugestões que ajudem a reduzir as despesas e a manter, no limite do possível, a qualidades dos serviços prestados pelo Estado aos cidadãos e às empresas.
Visando dar corpo à campanha anteriormente referida, apresento desde já algumas sugestões que reputo de relevantes e que poderão, estou certo, ajudar a atingir os objetivos anteriormente referidos:
1 - Acabar com o “negócio das arábias” relacionado com as indemnizações chorudas que têm vindo a ser pagas pelo Estado, aos responsáveis dos Departamentos/Serviços, de empresas públicas e outros Organismos Públicos, pelo término antecipado das suas Comissões de Serviço, mas que depois os voltam de novo a renomear para chefiar outras entidades públicas.
2 - Término das reformas vitalícias dos políticos que ainda delas beneficiam e redução do valor máximo de reforma a atribuir aos servidores do Estado;
3 - Aplicar aos servidores do Estado as mesmas regras que vigoram para o sector privado, nomeadamente em matéria salarial, carreiras, reformas, segurança no emprego e na doença. Só assim conseguirei compreender o sentido e o alcance do Acórdão do Tribunal Constitucional, relativamente à pretensa discriminação entre o sector público e privado;
4 - Aplicar aos rendimentos de capital o mesmo método de tributação que incide sobre os rendimentos do trabalho. Esta mesma medida deve ser proposta aos Chefes de Estado e de Governo na próxima Cimeira, tendo em vista a sua aplicação a todos os países da U.E.;
5 - As propostas anteriormente referidas partem do princípio que haverá, igualmente, lugar à renegociação das PPP, ao fim das rendas excessivas na área da energia, à tributação dos lucros à taxa normal para todas as empresas, mesmo as do sector financeiro, ao fim de benefícios fiscais sem qualquer sentido e ao combate efetivo à fuga e fraudes fiscais.
Abel Pinto
Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz
(Publicado no Diário de Coimbra de 2012-agosto-26)

Sim, nós podemos!

Diário de Coimbra, 29.dez.2013 Temos a noção de que atravessamos tempos únicos em que os desafios intranquilos duma nova era da Civil...