domingo, 19 de agosto de 2012

2012-ago.-19
Ref.ª: 2.6
CUIDAR DA AUTOESTIMA
A autoestima é a soma da autoconfiança com o auto respeito. Para aumentar a auto estima temos de desenvolver a convicção de que somos capazes de viver e que somos merecedores da felicidade e, portanto, capazes de enfrentar a vida com mais confiança, boa vontade e otimismo, o que nos ajuda a sentir realizados. Desenvolver a autoestima é expandir nossa capacidade de ser felizes.
Quanto maior é a nossa auto estima, mais capacitados estaremos para lidar com as adversidades; maior probabilidade de sermos criativos e de obter sucesso; maior tendência para tratar os outros com respeito e benevolência; mais alegria teremos pelo facto de existir e de conviver connosco mesmos. A autoestima é o que EU penso e sinto sobre mim e não o que o outro pensa e sente sobre mim. Ninguém pode respirar por mim e pensar por mim; ninguém me pode dar autoconfiança e amor-próprio. Posso ser amado e não amar a mim mesmo. Posso ser admirado pelos outros e, mesmo assim, ver-me como inútil. Posso conquistar honras e apesar disso sentir a sensação de vazio.
A tragédia é que muitas pessoas procuram a autoconfiança e autoestima em todos os lugares, menos dentro delas mesmas. E sendo a autoestima a afirmação da sua consciência e de uma mente que confia em si, então ninguém pode gerar essa experiência a não ser o próprio. Ela será sempre o fundamento da serenidade de espírito que torna possível enfrentar, viver e desfrutar a vida. Então, há que aprender a gostar mais de mim.
Nas pessoas do nosso tempo é muito frequente a falta de autoestima. A maioria vive o desânimo, a apreensão, o não acreditar em si, quando é fundamental a pessoa tornar-se protagonista da sua vida. Tal, não significa apenas ser destemido, dominador, vitorioso, mas significa também saber que temos valor na insegurança e nos complexos, sofrimentos, fraquezas e limitações. Ser protagonista da vida significa também ser fraco, compreender a fraqueza, sem viver despedaçado, dividido, rejeitando uma parte do EU e amando só a outra parte. Significa desejar compreender o segredo da nossa existência mesmo na parte negativa que, igualmente como a boa, deve ser vivida plena e intensamente. A consciência do todo que somos é a base de uma boa autoestima. Devo estar feliz de ser como sou. Eu sou o que sou. Sou protagonista porque sou assim. Só quem se aceita na sua totalidade é verdadeiro protagonista. Por isso, se compreende que é de desconfiar das pessoas que nunca se enganam, que sentem sempre ser superiores, que não mostram emoções, que se julgam perfeitas, que não mostram medo nem fraquezas, que nunca se expõem, que se fazem de vítimas, que manipulam, que são sedentas de consenso, glória e prestígio.
Quando alguém está em contacto com o seu verdadeiro EU, sente-se independente da opinião dos outros, não considera muito importante os louvores, nem se sente ferido pelas críticas que provêm do exterior. Não devemos procurar nos outros a razão das nossas fraquezas. Apenas devemos tornar-nos nós mesmos e ter a coragem de dizer “sim” a nós próprios. Temos de trabalhar sempre sobre a nossa própria fraqueza. Querer ser poderoso provoca depressão, frustração, não faz viver a realidade, não faz viver o EU. Provoca medo de errar e de arriscar, o medo do sofrimento, porque esperamos que aconteça o que está previsto, o que está programado na nossa cabeça. Não vivemos espontaneamente, aceitando a realidade e a vida, que são imprevisíveis. Não se aceita o que é diferente, a incerteza, o desconhecido, a mudança. Quando tudo isto acontece, é porque não se possui uma boa e sadia autoestima. Possuí-la, significa aceitar-se precisamente quando erramos, quando somos fracos, mas também quando somos vencedores e fortes.
É nesta diversidade de sentimentos, nas mais variadas vertentes, que reside a totalidade do que somos. Então, é pois o nosso EU que temos de conhecer, assumir e estimar, para assim sermos quem somos.
Alberto Lopes Gil
Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz
(Publicado no Diário de Coimbra de 2012-agosto-19)

domingo, 12 de agosto de 2012

2012-ago.-12
Ref.ª: 2.6

O trabalho como mera mercadoria
Para assegurar a prestação de cuidados de saúde da responsabilidade de serviços integrados no Serviço Nacional de Saúde (SNS), o Ministério da Saúde consultou empresas que lhe fornecessem as horas de trabalho de médicos e de enfermeiros consideradas necessárias. As empresas sabiam que seria escolhida a que oferecesse o preço mais baixo da hora de trabalho. O resultado destas operações, quando veio a público, suscitou indignadas manifestações de repúdio, por se considerar que o valor da hora de trabalho era muito inferior ao que seria admissível para os profissionais em causa.
Sem contestar a legitimidade e a justeza destas indignações, vale a pena assinalar que em Portugal há mais, muito mais, profissionais vítimas deste tipo de desvalorização do seu trabalho (advogados, arquitetos, assistentes sociais, biólogos, engenheiros, físicos, historiadores, psicólogos, etc., etc., onde acabará a lista?). Alguns destes profissionais vão conseguindo sobreviver à custa de bolsas de estudo para doutoramento e pós-doutoramento, outros emigram, outros trabalham como caixas em supermercados, outros nem trabalho arranjam e sobrevivem sob a proteção serôdia dos pais ou mesmo dos avós…
Alguns conseguem trabalho mas, considerados, por mera ficção, como profissionais independentes, são obrigados a emitir “recibos verdes”, agora eletrónicos, para receberem o seu salário e a ter de pagar a totalidade das contribuições para a segurança social que os trata como empresas. Deste modo, as entidades empregadoras transferem para estes trabalhadores o pagamento da parte da contribuição para a segurança social que lhes caberia se celebrassem com eles um contrato de trabalho.
É espantoso, em primeiro lugar, ser o próprio Estado, pela mão do Ministro da Saúde, a tomar a iniciativa de comprar horas de trabalho em vez de contratar trabalhadores, com a agravante de estarem envolvidas prestações de cuidados de saúde, que, pela sua natureza, implicam o estabelecimento de uma relação de confiança entre médico ou enfermeiro e doente.
Por outro lado, as vozes de indignação das Ordens Profissionais (Advogados, Arquitetos, Engenheiros, Médicos) limitaram-se a constatar a situação e a responsabilizar o Governo, mas esqueceram-se de que, em grande parte dos casos, são os próprios gabinetes de advocacia, arquitetura, engenharia, geridos por membros das próprias corporações, que “contratam” assim muitos daqueles jovens profissionais, tal como se esqueceram de referir que certos advogados, arquitetos, engenheiros, médicos auferem remunerações exorbitantes.
Parece pois que “o perigo de tratar o trabalho como uma «mercadoria sui generis» ou como uma «força» anónima necessária para a produçãocontinua a existir ainda nos nossos dias” tal como denunciou João Paulo II, em 1981, no n.º 7 da encíclica “Laborem Exercens”.
Carlos Paiva
Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz
(Publicado no Diário de Coimbra de 2012-agosto-12)



domingo, 5 de agosto de 2012

2012-ago.-05
Ref.ª: 2.6
A Indiferença
Os tempos que correm são férteis no suscitar de dúvidas sobre o futuro de uma sociedade cuja solidez e estabilidade se assumiam como adquiridos.
Na verdade, é certo que as sociedades ocidentais consagram a democracia social e económica e ponderam a consagração de direitos de terceira geração numa dinâmica de afirmação do Homem na sua dimensão plural e na relação com o ambiente e com o espaço que o rodeia. Porém, paralelamente, noutras latitudes e longitudes, numa dimensão totalmente distinta e inversa, a afirmação de uma globalização sem regras, imparável no seu desenvolvimento avassalador, trazendo consigo uma enorme sombra sobre formas de estar e viver de direitos e deveres que tínhamos por conquistados de forma irreversível.
Para nossa desventura a afirmação da democracia social (o denominado SozialStaat) pressupõe uma estrutura económica que só é possível de sustentar numa ordem mundial em que as regras sejam uniformes e justas. Neste momento, por toda a Europa, ecoam vozes reclamando a manutenção de um Estado Social cuja viabilidade depende da disponibilidade para afetar os necessários recursos económicos e sociais. Porém, estes são cada vez mais escassos e a realidade das leis do mercado é inexorável: quem produzir mais, e com menos custos – inclusive sociais – domina a economia e essa linguagem não se compadece com conquistas sociais que tínhamos como realidade imutável.
Antecipamos uma nova era recheada de sobressaltos sociais e económicos em que os decisores irão ser solicitados a proteger um catálogo de direitos que cada cidadão revê como seu património, mas que correspondem a uma construção social que começa a ruir por falta de sustentação. Aos tribunais irá ser solicitado o papel de amortizador das tensões que, inevitavelmente, vão advir de um processo, imposto pela crise económica, de redução do Estado Providência ao seu núcleo essencial.
Mas se essa tendência de moderação de conflitos sociais é resultante de alterações deste iniciar de século XXI em que está inscrita a marca genética da globalização, não é menos certo que outras nuvens escurecem o horizonte, requisitando uma atenção redobrada na defesa de princípios fundamentais que constituem fundamento do Estado de Direito. Na verdade, com os acontecimentos de Setembro de 2001, inicia-se um novo ciclo histórico com a reformulação de conceitos do domínio do controle social e do espaço das liberdades e direitos colocando em causa aqueles princípios.
Perante tal quadro quedamo-nos perplexos sobre a forma de enfrentar o presente e olhar para um futuro que se antevê pleno de sobressaltos. A resposta começa necessariamente em cada um de nós e na força das nossas convicções assumidas de forma livre, e esclarecida, num diálogo público eticamente informado com uma finalidade última que é o bem comum. Na verdade, mais do que a crise económica e financeira, vivemos uma crise de valores cuja superação só é possível pela coragem cívica forjada na ética dos comportamentos.
Nos dias que correm não é possível a indiferença face às mudanças que passam perante os nossos olhos. Como, já em 1978, previa Soljenititsyne, o mundo, hoje, se não está em vésperas da sua própria perda, está, pelo menos, numa viragem da História que, em importância, nada cede à da Idade Média ou à da Renascença: esta viragem exigirá de nós uma chama espiritual, uma subida para uma nova altitude de vistas e para um novo modo de vida em que a nossa natureza física terá deixado de estar entregue à maldição como na Idade Média mas na qual a nossa natureza espiritual terá também deixado de estar calcada aos pés como na era moderna.
Concluindo, ainda, com o mesmo pensador aquela subida é comparável à passagem dum grau antropológico para outro. Ninguém, na Terra, tem outra possibilidade senão subir cada vez mais alto.
José Santos Cabral
Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz
(Publicado no Diário de Coimbra de 2012-agosto-05)

domingo, 29 de julho de 2012

2012-jul.-29
Ref.ª: 2.6
A Verónica e a Márcia
A Verónica foi mãe pela primeira vez há 5 meses; ao regressar ao gabinete, viu o seu lugar dispensado, supostamente por falta de trabalho, mas realmente por ter sido substituída por uma outra jovem a fazer um programa de estágio profissional remunerado; na outra ponta da linha, a Márcia vê com a angústia a aproximação da segunda semana de agosto, altura em que acaba o seu estágio profissional remunerado, e fica novamente sem dinheiro e sem nada para fazer.
Eu olho para ambas com aquela cara de cidadão ausente, sem nada para dizer diante dos dramas concretos, sabendo que estes nomes e estas situações, com contornos mais definidos ou mais difusos, se multiplicam às centenas, aos milhares; percebendo que há aqui discriminação, talvez exploração, definitivamente ansiedade extrema e insegurança face ao futuro, e que não tenho nas minhas mãos qualquer nenhuma resposta capaz nem na minha boca qualquer nenhuma palavra de esperança convincente para estas duas jovens mulheres.
Não discuto a bondade ou maldade de um Programa como o Estágio Profissional Remunerado. Medidas desta natureza comportam sempre os dois lados da moeda, e são sobretudo boas ou más conforme o uso que se faz delas; mas são medidas inequivocamente curtas, muito curtas, que parecem apenas adiar, iludir, mitigar uma resposta de fundo aos problemas, se tal resposta existe… E eu recuso-me a aceitar que tal resposta não exista! Bem sei que os paradigmas estão todos em profunda alteração, que há os chineses e os indianos, que há os paraísos fiscais e a globalização financeira, tudo isso; mas o homem, que é sempre o homem e a mulher concreto/a, é e tem que ser o centro e o fim de toda a vida económica e social. Porque o social não é só uma questão de estatística; é sobretudo uma questão de vontade.
No fundo, até é simples: temos diante de nós uma realidade e um dever ser. Toda a sabedoria está em ajudar a realidade a caminhar para o dever ser, o que tem, por um lado, exigências éticas e, por outro lado, exigências técnicas: estudo aprofundado, diálogo sério, legislação conforme, fiscalização efetiva, partilha de trabalho e de rendimentos. Eu apenas pediria que quem administra, quem investe, quem governa, quem investiga, quem ensina, quem cria opinião, se preocupasse, de verdade, (também) com o dever ser. Sem este “caldo cultural do dever ser”, todas as medidas degradam em xico-espertice, em exploração dos desgraçados, na lei da cunha e, nalgumas escalas, em pura corrupção.
O QREN traz-nos agora o Programa Impulso Jovem, dotado com 334 M€, e apresentado como “um conjunto de medidas de combate a um dos principais desafios com que Portugal se confronta atualmente: os elevados níveis de desemprego jovem”. Honestamente, em nome da Verónica e da Márcia, desejo e espero os melhores frutos do Impulso Jovem; mas temo que, semeado no velho caldo da xico-espertice, rapidamente se degrade, de um lado, em mais exploração e marginalização, e, do outro aldo, em mais ansiedade e menos futuro.

Carlos Neves
Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz
(Publicado no Diário de Coimbra de 2012-julho-29)

domingo, 22 de julho de 2012

2012-jul.-22
Ref.ª: 2.6
A ESCRAVATURA AINDA EXISTE
As imagens entraram pela casa dentro com a violência inacreditável de uma realidade que parece ter saltado do passado negreiro para se instalar no nosso quotidiano. Na Covilhã, sessenta pessoas africanas estavam, há dois meses, a ser tratadas como animais: num edifício velho, para passar despercebido, sem água, nem luz, nem esgotos. Um garrafão de cinco litros de água que tinha de dar para a comida e para tomar banho.
Estas imagens quase todos vimos, comentámos e depois silenciámos. Parece já fazer parte de uma história onde tudo cabe e onde tudo se esquece. A rotina de uma sociedade sem valores éticos assentes na dignidade da pessoa justifica as situações e o esquecimento. Mas não há consequências nem lições a retirar? É isto natural?
Gostaria de deixar apenas três notas.
As empresas envolvidas foram “lavando” as mãos, recusando responsabilidades. A PT contrata ao consórcio Opway-Somague que subcontratou a uma outra empresa, que terá ainda subcontratado, assim diluindo a responsabilidade. Certamente, a última da lista decidiu alojar aqueles trabalhadores naquele barracão para não ficarem à chuva. Não sei se os trabalhadores pagam algum aluguer por tais instalações. Como é possível esta irresponsabilidade em dominó? A PT não tem nada a ver com esta obra? E o Opway-Somague? A maioria das empresas e cidadãos alemães também não tiveram nada a ver diretamente com Auschwitz. Portanto, deve perguntar-se: Onde está a responsabilidade social das empresas? Ou basta ir descartando responsabilidades para cima de outros? Quem é o principal beneficiário da obra? Todas as empresas vão ganhando com a exploração destes homens, porque a escolha do subempreiteiro é sempre pelo menor preço. Como é possível haver empresários sem quaisquer escrúpulos morais que dormem descansados escravizando outras pessoas? O que irá suceder às empresas envolvidas, aos empreiteiros e aos subempreiteiros? Nada?
O ministro Pedro Mota Soares diz que atuará se existirem casos graves. O que são casos graves, para quem está no alto do poder? Será necessário nomear alguma comissão de inquérito para clarificar o assunto? E irá descobrir que alguns deles são “ilegais”, o que é muito grave, pelo que terá de se exigir o seu repatriamento. Veremos! Mas, apesar de infeliz esta observação, é evidente que não se pode acusar o ministro desta situação. O Ministério do Trabalho tem organismos e competências para fiscalizar e detetar estas situações. Estão estes organismos a atuar diligentemente? E possuem meios suficientes? E quem fiscaliza as condições dos trabalhadores que vivem fora dos estaleiros? Há uma especial atenção aos emigrantes, terreno fértil para o aparecimento de situações de exploração, redução de direitos e até também de escravatura?
Mas há um terceiro ator fundamental. Dada a falta de escrúpulos de tantos empresários e a impossibilidade de fazer uma adequada fiscalização em todas as obras, torna-se insubstituível o papel da comunidade, sobretudo da comunidade de vizinhança. Nada nem ninguém pode substituí-la. São os vizinhos quem melhor pode detetar estas situações e depois denunciá-las às instâncias apropriadas. Mas falta-nos muito essa preocupação cívica. Um funcionário de um supermercado reconheceu que suspeitara de qualquer coisa quando via aquelas pessoas sujas vir quase todos os dias fazer compras, mas reconheceu que falhou na sua responsabilidade cívica, certamente mais por inércia do que convicção.
Quantas situações destas estarão a acontecer só porque nós, cada um de nós, como vizinhos, não estamos atentos? Aliás, veja-se a rapidez com que os trabalhadores foram “bem” instalados (mas por quanto tempo?), logo que a situação se tornou pública.
Quando perceberemos que “todos somos verdadeiramente responsáveis por todos” (João Paulo II) e que ninguém nos pode libertar dessa obrigação se queremos construir uma sociedade cada vez mais humana?
José Dias da Silva
Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz
(Publicado no Diário de Coimbra de 2012-julho-22)

domingo, 15 de julho de 2012

2012-jul-15
Ref.ª: 2.6
A empregabilidade dos cursos e a missão da Universidade
No passado mês de junho as Universidades Portuguesas estiveram em destaque a propósito da empregabilidade dos seus cursos. Títulos como Governo congelou número de vagas para o próximo ano letivo. Universidades obrigadas a provar empregabilidade dos cursos para aumentar vagas, associados a algumas afirmações do Secretário de Estado do Ensino Superior («Os estudantes vão passar a ter os dados da empregabilidade de cada curso, na altura de fazerem as escolhas para o ingresso na Universidade» e ainda «andam mal as universidades que não se preocupem com o que os seus diplomados vão fazer, porque já não há nenhum tipo de curso com emprego garantido»), colocaram de novo a missão das Universidades na ordem do dia.
Paralelamente, se tivermos em conta que as anteriores declarações foram feitas numa conferência sobre Programas partilhados com empresas: Um caminho para o Ensino Superior?, que marcou a assinatura de um protocolo entre a Universidade de Aveiro e o Grupo Jerónimo Martins para a criação da licenciatura em gestão comercial, apetece perguntar: mas, afinal, qual a missão da Universidade?
E é precisamente neste momento que sinto necessidade de lembrar – e reiterar – a minha inteira concordância com aquele membro do governo, quando, em 1995, escreveu «Uma universidade é um sítio onde se estuda. Não é um sítio onde se ensina, muito menos um sítio onde se avalia, muito menos ainda um sítio onde se passam diplomas». E continuava: «Sem dúvida que ao terminar o seu curso o licenciado procurará uma profissão. Mas a universidade não deve ter da sua ligação ao mercado de trabalho uma visão demasiado estreita e a curto prazo. A universidade não forma técnicos, mas sim indivíduos cultos, pessoas com boa preparação de base e autonomia intelectual, que podem esperar mudar de ocupação várias vezes ao longo da sua vida. …. As universidades não devem pretender substituir-se ao mercado fazendo formação “prática”, porque essas são competências que lhe são estranhas».
Se é verdade que, na década de 90, se optou por fazer uma clara distinção entre Universidades e Politécnicos, apontando como interesses dos segundos o saber de natureza profissional, a investigação orientada e o desenvolvimento experimental, também é justo reconhecer que, entretanto, algumas diferenças se foram esbatendo em grande parte por influência das Universidades que, na procura de fundos, sobretudo comunitários, sobrevalorizaram a sua vocação profissional.
Neste contexto, o repto lançado pelo Presidente do IPC («… tudo ou quase tudo o que se faz ao nível do ensino superior na área da formação também se faz numa universidade e nesse sentido, tudo tem natureza universitária pelo que não existem muitas razões para continuar a sustentar a existência de um sistema binário de instituições») é um alerta que, contrariamente ao seu objetivo inicial, reforça a necessidade da existência de um sistema binário no ensino superior português. Porque se assim não for, se a Universidade não se concentrar na sua missão «de criação, análise crítica, transmissão e difusão de cultura, de ciência e de tecnologia», arrisca tornar-se num centro de aprendizagem onde, parafraseando Alberto Manguel, «estamos a criar seres humanos que não confiam nas suas próprias capacidades e que começam a acreditar que o seu único objetivo na vida é arranjar trabalho para conseguir sobreviver até chegar à reforma – que também já lhes estão a tirar.»
Estamos a meados de mês de julho e as férias de verão – como são referidas no calendário escolar da UC – decorrem no mês de agosto, altura propícia ao descanso, ao exercício tranquilo do diálogo e da reflexão. Sabemos que podemos fazer a diferença, se o quisermos, se tivermos vontade de reequacionar os nossos propósitos e de delinear novas estratégias. Só assim, com todos, a universidade poderá continuar a afirmar-se pela qualidade, a cultivar o espírito crítico, preservando a serenidade exigida pela atividade científica. Porque dela, afinal, também depende a inteligência do país.
Teresa Pedroso de Lima
Membro da Comissão Diocesana justiça e Paz
(Publicado no Diário de Coimbra de 2012-julho-15)

domingo, 8 de julho de 2012

2012-julho-08
Ref.ª: 2.6

CARTA ABERTA AOS GOVERNOS DO MUNDO E ÀS INSTITUIÇÕES INTERNACIONAIS

Caros senhores,
Sou um simples cidadão comum, de nacionalidade portuguesa, que está cético e preocupado em relação ao que se passa hoje no mundo, nomeadamente nos domínios económico e financeiro.
O que temos observado, desde meados de 2008, é demasiado grave e preocupante para que v/ Exªs., não assumam, de facto, as vossas responsabilidades e tomem as medidas que se impõem tendo em vista evitar a catástrofe que hoje afeta muitos milhões de homens e mulheres deste nosso planeta.
Não consigo compreender, como é possível tolerar que um grupo muito restrito de cidadãos e de grupos económicos que intervêm nos mercados cambiais e financeiros, possam lidar de forma tão impune com as nossas vidas, especulando sem escrúpulos nestes mercados, em prejuízo de países e de povos que trabalham desgraçadamente para aceder a um nível de vida que lhes permita viver com dignidade.
Não consigo compreender, como é possível permitir-se que as maiores transações que em cada dia se fazem, a nível mundial, tenham por base não os bens e os serviços de que necessitamos para viver, mas o próprio dinheiro, sem qualquer aderência à realidade e puramente para fins especulativos?
Não consigo compreender, como é possível permitir que sobre este dinheiro, criado artificialmente e sem qualquer correspondência com a realidade económica e financeira, se multipliquem negócios e mais negócios diários de biliões e de triliões, sem qualquer controlo das autoridades nacionais e internacionais.
A crise com que temos sido confrontados tem, como sabem, a sua origem na tamanha impunidade concedida a estes senhores e a estes grupos económicos, que se movem sem escrúpulos, sem pudor e sem ética e que se passeiam, impunemente, pelos corredores do poder, vivendo faustosamente à custa do suor, dos sacrifícios alheios.
Não consigo compreender, as razões que impedem o concerto de posições das autoridades legítimas nacionais e internacionais, para dar combate exemplar a tais impunidades e dar-lhes aquilo que realmente merecem.
Não consigo compreender, por que razões não regulam tais “mercados “dominados pela especulação, pelo ganho fácil e pela impunidade, fazendo aí aplicar o direito internacional e o estabelecimento de regras claras e transparentes de controlo e de supervisão.
Não consigo compreender, porque não se acaba, definitivamente, com os paraísos fiscais, que escondem 25% da riqueza privada mundial e que cujos lucros acumulados em 10 anos, segundo o FMI, chegariam aos 5 milhões de milhões de dólares, valor este equivalente ao total mundial das dívidas públicas acumuladas, quando há já informação bastante que comprova que estes “territórios” não estão ao serviço do bem comum, bem pelo contrário.
O que se está a passar na atualidade exige que V/ Exªs. atuem de forma mais célere e mais determinada no combate a tamanhas impunidades.
Se o não fizerem, caros senhores, terão de ser considerados cúmplices desta batota coletiva, que está a colocar em causa o nosso mundo, as nossas vidas e a aspiração legítima da humanidade a um mundo mais equitativo, mais justo e mais solidário.
O tempo escasseia e quero acreditar que ainda é possível confiarmos em V/ Exs., e na vossa capacidade, para pôr fim a tamanhas impunidades.
Abel Pinto
Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz
(Publicado no diário de Coimbra de 2012-julho-08)

Sim, nós podemos!

Diário de Coimbra, 29.dez.2013 Temos a noção de que atravessamos tempos únicos em que os desafios intranquilos duma nova era da Civil...