domingo, 5 de fevereiro de 2012

2012-fev.-05
Ref.ª: 2.6
DEUS CRIOU / O HOMEM “DESCRIOU”

A primeira página da Bíblia é um poema da criação. O Génesis não apresenta uma história real, mas uma narração sagrada, em moldes populares e antropomórficos. Quer afirmar que Deus é o único Criador e o homem um ser criado e o responsável pela natureza criada. A criação acontece em seis dias, para assim realçar o descanso no sétimo dia.
No princípio, Deus criou os céus e a terra. Disse: faça-se a luz; haja firmamento; haja luzeiros; separem-se as águas da terra e sejam povoadas as águas e a terra. A seguir, disse: façamos o ser humano à nossa imagem e acrescentou: crescei, multiplicai-vos e dominai a terra! Ao olhar a obra criada, Deus viu que era muito boa e, no sétimo dia, repousou.
Hoje, o que podemos é narrar a “descriação” dos novos “deuses”.
Eles dizem: Haja separação das águas e da terra, e aconteceu. Os ricos unem-se e separam-se dos pobres: os ricos vivem em palácios; os pobres, na choupana ou debaixo da ponte. A seguir, decidem chamar seu ao que era dos outros. Mexem nos fundos de pensão, aumentam impostos, taxam pobres e reformados, reduzem salários, aumentam a precariedade laboral, dificultam o acesso aos bens essenciais. Criam as luminárias e, vestidos de luz e esplendor, pavoneiam-se pelos templos do poder. Vendo que isto era bom, dizem aos pobres multipliquem-se e povoem a nova terra, haja servos de mão-de-obra barata, sejam os subúrbios das cidades povoados de cidadãos sem pátria e sem direitos. Disseram ainda: façamos o capital à nossa imagem para que domine sobre os que rastejam na terra.
Por fim, não repousam no sétimo dia, enquanto os oprimidos amaldiçoam esta “descriação”, porque percebem que nunca mais terão descanso.
Agora é preciso recriar um novo paraíso onde todos se vejam respeitados na sua dignidade e direitos e ninguém tenha de se esconder e sentir nu como Adão e Eva depois do pecado; onde ser “deus” seja servir e não servir-se do povo; onde se vislumbre a libertação e a esperança com o corte da cabeça da exclusão.
O mundo é de todos e a todos Deus confiou o seu justo governo. Deus gravou na consciência do homem valores éticos, como a justiça, a paz, a verdade, a honestidade, a solidariedade… que hão de estar sempre na base de qualquer forma de governo. A voz da consciência é norma de conduta, que ninguém pode calar ou desvirtuar na gestão do bem comum.
A criação deu lugar à “descriação” e surgiu a confusão! Deus criou e viu que era bom. O homem “descriou” e vemos que é mau. Por isso, todos somos chamados a criar uma nova sociedade, com confiança e a esperança de em breve podermos ver que tudo é bom!

Alberto Lopes Gil
Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz
(Publicado no Diário de Coimbra de 2012-fevereiro-5)



domingo, 29 de janeiro de 2012

2012-jan.29
Ref.ª: 2.6
Taxas moderadoras ou copagamentos?

Após um mês de aplicação da nova legislação sobre taxas moderadoras, espero que estejam resolvidas as dúvidas de interpretação e definidos os procedimentos. Uma ligeira reflexão sobre o tema parece-me oportuna.
As taxas moderadoras, herdeiras das comparticipações pagas pelos subscritores das caixas de previdência, foram previstas, inicialmente, como meios “tendentes a racionalizar a utilização das prestações” e eram uma exceção à regra geral da gratuitidade. Depois, passaram a ter o “objetivo de completar as medidas reguladoras do uso dos serviços”, invertendo-se a regra geral, ou seja, a isenção de taxas moderadoras passou a ser a exceção.
Em qualquer caso, subjaz à institucionalização das taxas moderadoras a convicção de que os cidadãos tendem a consumir cuidados de saúde de modo irracional e excessivo, o que convém refrear através de barreiras económicas.
A atual regulação desenvolve o princípio de que “as prestações de saúde” do SNS “implicam o pagamento de taxas moderadoras” e muda o paradigma ao enfatizar as situações de “dispensa de pagamento” em detrimento das isenções em função de características pessoais.
Preveem-se alguns mecanismos de racionalização como na dispensa de pagamento nas urgências hospitalares, quando o doente é encaminhado através da rede de cuidados de saúde primários ou é internado através da urgência. Mas, à luz da justiça e da equidade, muitas outras situações mereceriam a isenção. De facto, que moderação está nas mãos do doente a quem são prescritos exames (análises, radiografias, ecografias ou outros) para fundamentar o diagnóstico, ou que tem de voltar à urgência devido a inapropriada avaliação clínica em atendimento anterior ou quando vai ao centro de saúde mudar o penso na sequência de uma cirurgia? Será que o doente pode promover a contenção na requisição de exames complementares, deve abster-se de voltar à urgência apesar de se sentir pior depois do primeiro atendimento ou deve mudar o penso em casa, prescindindo dos cuidados de enfermagem? Nestes casos e numa miríade de outros semelhantes os pagamentos dos doentes parecem mais copagamentos do que taxas moderadoras. E afinal quem deve e pode ser moderado? Que medidas tomar para reduzir as falsas urgências, as consultas desnecessárias ou os exames excessivos? É verdade que os eventuais desperdícios e as ineficiências do SNS se combatem por esta via?
Em saúde, pobre é quem precisa de cuidados e rico é quem consome cuidados desnecessários, desmedidos ou inúteis com os recursos de todos. Seria legítimo que a estes últimos fosse cobrado o custo real dos cuidados. O discernimento destas situações há de ser alcançado com base em critérios padronizados, mas dependentes de apreciação caso a caso. Dir-me-ão que este caminho é muito difícil e incómodo para quem decide. Mas desde quando se pode, legitimamente, pôr de lado a justiça e a equidade por ser difícil ou incómodo concretizá-las?
Carlos Paiva
Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz
(Publicado no Diário de Coimbra de 2012-Janeiro-29)

domingo, 22 de janeiro de 2012

2010-jan.-22
Ref.ª: 2.6
O Tempo do Direito

As sociedades laicas, que inventaram os Direitos Humanos -edificados, pela primeira vez na História, a partir dos direitos do indivíduo - continuaram, por muito tempo, a manter a chama do dever como exigência de cida­dania. Porém, as nossas sociedades de consumo-comunicação de massas deixaram de exaltar sistematicamente os manda­mentos difíceis, funcionando, quantas vezes, fora do dever e da obri­gação moral exigente.
Reconhecemos, ainda, os deveres negativos, como não roubar, não matar, não causar sofrimentos. Mas já não o faze­mos quanto aos deveres positivos regulares e sistemáticos. Correlativamente, desejamos normas morais indolores à “la carte”. Admitimos a possibilidade de clonar, de ajudar a morrer, de impedir de nascer, de contratar a paternidade, de manipular, ao nosso gosto, as leis da Natureza, etc. A Lei é adapta-se aos nossos interesses individuais e perdemos em termos de ética da responsabilidade, e solidariedade, o que, ilusoriamente, ganhámos na afirmação egocêntrica do Homem como centro do mundo, olimpicamente indiferente ao bem comum.
A ausência de valores, ou o seu relativismo, tornou comum o recurso aos tribunais como definidores dos crité­rios que deixaram de estar inscritos nas consciências. A justiça tornou-se uma referência do quotidiano e é aos tribunais que se pede, muitas vezes, a definição do que é certo e errado, pois que tal tarefa não pode ser alcançada num universo de relativização de valores, típica do denominado pós-modernismo.
A própria família clássica não resistiu à usura do tempo, surgindo um novo modelo em que se coloca, muitas vezes, em crise o cumprimento de funções essenciais, nomeadamente educativas, havendo a necessidade de recorrer a um terceiro (o juiz) para atenuar as tensões existentes no seu núcleo mais íntimo.
O recurso ao tribunal surge, cada vez mais, como uma forma de o indivíduo afirmar a sua titularidade de direitos, tentando obter o reconhecimento da sua identidade, do seu território e da sua própria individualidade. Acresce que o aumento de tal apelo aos tribunais, como forma de regulação social, além de favorecido pela ausência de referências éticas e morais, foi impulsionado pelo desapa­recimento dos mediadores sociais tradicionais, aos quais era reconhecida uma autoridade natural - familiares, religiosos, sindicais e políticos -, assim como pela desumanização das grandes concentrações urbanas e pela quebra nas relações interpessoais.
Porém, a resposta a muitas das questões para as quais se recorre aos tribunais deve estar, em primeira linha, na nossa reta consciência, tendo a coragem de assumir valores que são imutáveis e que estão para além da voragem do tempo. Como afirmava Soljenitsyne uma sociedade em que não existe uma balança jurídica imparcial é uma coisa horrível. Mas uma sociedade que não possui senão uma balança jurídica não é verdadeiramente digna do homem.
José Santos Cabral
Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz
(Publicado no Diário de Coimbra de 2012-Janeiro-22)

domingo, 15 de janeiro de 2012

2012-jan.-15
Ref.ª: 2.6
Solidariedade é determinação

Ensina a Didaskalia cristã (séc. III) que “é preferível morrer de fome do que aceitar algo dos ricos que cometem injustiças”. A força deste texto está em que muitos cristãos eram tão pobres que morreriam mesmo de fome se não aceitassem tais esmolas. Por isso, provavelmente aceitavam (sendo conhecidas honrosas exceções), dando expressão concreta ao grito de Amós uns nove séculos antes: “os tempos são tão maus, que o mais prudente é ficar calado”. E quem poderá julgar aquele que cala a sua dignidade a troco de um pedaço de pão?! Se “a esmola queima a mão do pobre” (Helder Câmara), a fome queima-lhe a vida toda.
Vivi o último Natal mergulhado nestes pensamentos, numa dolorosa tensão interior entre a defesa da dignidade dos empobrecidos e a aceitação “cautelosa” de tantas ações solidárias. Mas, talvez agora, passada essa onda de tanto bem fazer aos pobres, ou de tanto pedir a favor das muitas associações de bem fazer, possamos falar mais serenamente.
Desde logo, a solidariedade não é um comportamento, menos ainda um espetáculo, ou alguma campanha, e muito menos ainda um promissor campo de negócios, com vantagens publicitárias e fiscais. A solidariedade é uma atitude que gera permanentemente comportamentos de amor, mas nunca é redutível a comportamentos ocasionais, nem sequer a um somatório dos mesmos. A solidariedade “é a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum” (João Paulo II); é um modo de estar na vida e no mundo; de ser pessoa e cidadão e marcar as estruturas sociais, económicas, políticas e culturais com essa atitude de proximidade amorosa e libertadora dos outros, a partir dos outros e com os outros. O resto corre o risco de ser solidariedadezinha, amesquinhamento da dignidade do outro.
Evidentemente, a solidariedade como estilo de vida exige partilha de bens. E como nos lava a alma conhecer tanto gesto generoso de partilha! Aceito mesmo a distribuição festiva de cabazes de natal; quisera até que fossem “cabazes” esbanjadores! Mas a solidariedade não pode omitir-se da luta pela justiça e da transformação das estruturas que empobrecem muitos a favor de uns poucos. E como dói também na alma ver tantos organismos com real poder social, económico e político mais preocupados em publicitar os seus “cabazes” (!) do que em estudar e realizar medidas consistentes de combate à pobreza. Essa, sim, é a verdadeira medida da solidariedade que lhes é exigida. Porque a cada um é pedido conforme o que lhe foi confiado.

Carlos Neves
Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz
(Publicado no Diário de Coimbra de 2012-Janeiro-15)

domingo, 8 de janeiro de 2012

2012-jan.-08
Ref.ª: 2.6
A(s) Pessoa(s) e o Resto

Um dos paradoxos, com que se tece o mistério do homem, está no contraste entre aquilo em que acreditamos e como o vivemos, a nível pessoal e institucional. A maioria das atuais legislações garante a dignidade da pessoa como fundamento do ordenamento social. Contudo, a prática é bem diferente, mesmo que o primado da dignidade humana seja indiscutível, porque ela “é o bem mais precioso que o homem tem, graças ao qual transcende em valor todo o mundo material”, o que acarreta “a prioridade da ética sobre a técnica, o primado da pessoa sobre as coisas, a superioridade do espírito sobre a matéria.” (João Paulo II).
A primeira consequência é a centralidade da pessoa, uma de tantas expressões que a usura da rotina e o comodismo alienante vão mirrando no seu conteúdo substancial. Torna-se, por isso, importante recuperá-la e valorizá-la, especialmente, na sua concretização prática.

A nível individual, implica que cada um se assuma como protagonista, sujeito, livre e consciente, da construção de um futuro coletivo, sempre num diálogo dialético que respeite o princípio da subsidiariedade, segundo o qual cada um (pessoa ou grupo) deve assumir plenamente, na sua área de influência e de poder, aquilo e só aquilo que lhe compete. Assim não só se cimenta uma forte coesão social como nos enriquecemos com os talentos, únicos e irrepetíveis, característicos de cada cidadão.
A nível institucional, exige a criação e promoção de uma sã cidadania. Doutrinados para a estabilidade e o medo perante a mudança e o conflito (no sentido agónico) político, impostos Estado Novo, continuamos hoje em democracia reféns desses “brandos costumes”.
A maioria fica-se pela democracia formal (de votar/delegar); outros insistem na democracia participativa, para a qual pouquíssimos estarão preparados. Não só vivemos alegremente manietados pela partidocracia, conformados pela fatal rotatividade do poder e anestesiados pela crescente desconfiança em governantes incapazes de projetos mobilizadores, como somos mediaticamente formatados pelos mesmos debates, pelos mesmos opinadores e pelos mesmos argumentos, cegos para a criatividade e para a mudança.
É tempo de, sobretudo a escola, os média, as igrejas e movimentos cívicos, formarem para o bem comum numa nova dinâmica que valorize a criatividade e inovação, o pluralismo e abertura aos outros, e forme no hábito de pensar prospectivamente de modo a sermos construtores de um futuro que não seja mera repetição doentia do presente falido. 

José Dias
Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz
(Publicado no Diário de Coimbra de 2012-Janeiro-08)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Esperança e Critérios de Vida



Esperança e Critérios de Vida
1. Vivemos dias marcados pela dúvida e pela incerteza, que afectam os indivíduos e as instituições e perturbam sobremaneira as relações sociais e económicas e as decisões políticas. Em face deste espectro, que amarga a existência e tolhe a razão, a CDJP (Comissão Diocesana Justiça e Paz) de Coimbra julga oportuna uma palavra de esperança, fundamentada na fé em Jesus de Nazaré, que centrou a sua mensagem no convertei os vossos critérios de vida (Mc 1,15), na capacidade de superar as crises, que marcaram a nossa História colectiva, e na força transformadora dos valores éticos por que pugnamos e que tantos reclamam como essenciais à vida em sociedade.
Reconhecemos que a presente situação mundial é complexa e grave, marcada por uma crise, mais estrutural do que conjuntural, e por uma globalização económica e financeira desregulada, que inverte a ordem dos valores, ao colocar os interesses económicos e a especulação acima da dignidade e dos direitos das pessoas, com efeitos perversos sobre sociedades, indivíduos e decisores políticos.
As sociedades em geral – e a ocidental em particular – vivem demasiado centradas em interesses imediatos e egoístas, com a consequente perda do sentido do bem comum e de referenciais éticos estruturantes. Parece prevalecer o comodismo de quem desiste de construir o futuro, conformando-se, como agora nos referiu Bento XVI, com uma dinâmica social que “absolutiza o presente, isolando-o do património cultural do passado e sem a intenção de delinear um futuro”. É uma cultura do efémero, permeável à publicidade manipuladora, à corrupção sob múltiplas formas, ao endividamento irresponsável.
Portugal, em concreto, é um país que soma a esta cultura um conjunto de deficiências preocupantes, entre as quais se destacam:
- situação periférica e escassos recursos naturais nem sempre aproveitados da melhor forma;
- fraco desenvolvimento económico;
- população envelhecida e acentuada queda da natalidade;
- débil vontade na procura de qualidade e excelência individual, institucional e colectiva
- com demorada aplicação da Justiça,
- com níveis preocupantes de iliteracia e insucesso na Escola,
- com falta de equidade no acesso aos cuidados de Saúde, apesar dos padrões de qualidade reconhecidos internacionalmente;
- assimetria económica (a maior da União Europeia) em que quase dois milhões de pobres contrastam com titulares de remunerações ou prémios exorbitantes, sem relação com resultados das empresas, reformas escandalosas, com curtíssimas carreiras contributivas, e outras mordomias e benefícios, fruto, em grande parte dos casos, de clientelismo político-partidário;
- problemas graves, persistentes e estruturais, ao nível do emprego e das condições de trabalho, que remetem um número preocupante de concidadãos para a exclusão.

Na génese desta situação encontram-se diversas razões, tais como:
- a inexistência de um projecto, ambicioso e inovador, para o desenvolvimento do país, que seja credível e mobilizador dos cidadãos na construção de novos paradigmas;
- a falta de lideranças credíveis empenhadas na prossecução dos princípios do Estado de Direito Social, sem submissão a conveniências eleitoralistas ou promoções pessoais;
- a existência de uma débil sociedade civil, demasiado acomodada nos seus “direitos” e reticente às mudanças;
- a incapacidade para alcançar consensos político-sociais suficientemente alargados, que possibilitem o empreendimento de reformas há muito diagnosticadas como essenciais para o desenvolvimento sustentado do país;
- o aproveitamento ineficiente dos fundos europeus e das comparticipações estatais e das oportunidades históricas que os mesmos constituíram;
- a conivência das elites financeiras que, displicentemente e escondendo a realidade, aliciaram os cidadãos com propostas de empréstimos ao consumo e nunca de poupanças,
- o desenvolvimento de uma economia paralela alimentada, por exemplo, por pequenos e grandes negócios que não pagam impostos ou pela conivência de quem não pede factura dos bens e serviços que compra,
- sintomas de uma corrupção sistémica que se estende desde os patamares mais elevados da administração até ao cidadão comum.
Acresce que a actual situação orçamental e o nível de endividamento ao estrangeiro são terreno fértil para crescente especulação financeira, o que coloca Portugal – a par com outros países – em graves dificuldades para alcançar maior credibilidade no concerto das nações e para conseguir empréstimos internacionais, a fim de fazer face ao pagamento da dívida e das despesas não cobertas pelas receitas fiscais. Basta lembrar que no Orçamento de Estado para 2010 as despesas dos juros eram já superiores a cinco mil milhões de euros.


2. A situação acima referida condicionou as medidas políticas, necessárias e urgentes, que são do conhecimento público. Reconhecemos que, num contexto de interdependência e de globalização, controlado pela especulação financeira, essas decisões se tornam cada vez mais difíceis e complexas, parecendo-nos indispensável que sejam acompanhadas de uma procura activa de consensos.
De facto, o esforço de equilíbrio das finanças públicas deve manter-se associado à correcção das grandes desigualdades na repartição da riqueza e do rendimento. Assim, é fundamental que o Estado cumpra o seu papel na regulação social, em particular no combate à pobreza e na protecção dos desempregados. Além disso, na reorganização das empresas e das instituições, do sector público e do sector privado, importa promover maior rendibilidade dos bens e serviços e melhorar o grau de eficiência e eficácia humana, económica e energética.
Por exigência do bem comum, compete ainda aos que mais ganham, podem e sabem estar à altura da solidariedade e das responsabilidades que podem e devem assumir.
Portanto, exige-se que, em todas as medidas, o direito do pobre seja sempre o primeiro a ser salvaguardado, evitando a deterioração da já difícil situação em que se encontram os mais fragilizados.


3. A CDJP deseja, neste momento de desalento e de dúvidas, trazer uma palavra de esperança, pois acredita que os portugueses, tal como têm feito ao longo da sua História, saberão superar as dificuldades e assumir os sacrifícios, fazendo valer as suas energias e potencialidades.
Em nome da esperança, somos chamados hoje a um novo esforço que impõe mudanças radicais, a nível pessoal e colectivo. O futuro está também nas nossas mãos, e isso exige a generalização de um ambiente social de comportamentos éticos, que deve assentar:
- numa forte consciência de que todos temos alguma responsabilidade na actual situação, pois, “é por demais fácil alijar sobre os outros a responsabilidade das injustiças se se não dá conta ao mesmo tempo de como se tem parte nelas e de como a conversão pessoal é algo necessário, primeiro que tudo o mais” (OA 48);
- em novos estilos de vida, que alterem hábitos consolidados de consumismo, de falta de cidadania, de degradação da Natureza, de modo a garantir um desenvolvimento sustentável e a manutenção da Terra habitável pelas gerações futuras;
- “numa justa liberdade perante os bens materiais” (FC 37), nomeadamente perante o dinheiro, um instrumento para a nossa qualidade de vida e não um deus que nos escraviza e aliena;
- na disponibilidade para acolher o outro como companheiro na construção da sociedade, sem o hostilizar ou recear como um concorrente, enriquecendo-nos mutuamente com as diversidades individuais e grupais;
- numa confiança responsável na solidariedade, cimento estruturante da coesão social, inerente a uma cidadania comprometida e interventiva;
- em formas novas de organizar a sociedade, fundadas no serviço ao bem comum, a  começar pelas instituições, nacionais e internacionais, reguladoras dos mercados financeiros;
- na multiplicação de iniciativas inovadoras de quem acredita na nossa capacidade para encontrar soluções para grande parte das dificuldades que nos atingem;
- uma atenção séria para que os principais responsáveis da crise em que vivemos não sejam os primeiros beneficiários da mesma;
- na procura de um “desenvolvimento económico, social e político, autenticamente humano”, baseado no “princípio da gratuitidade como expressão de fraternidade” (CV 34).
Em nome da mesma esperança, decorrendo o Ano Europeu da Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social e vivendo o único tempo da História em que temos recursos mais do que suficientes, é imperativo combater estereótipos e preconceitos colectivos sobre a pobreza e cuidar de todos os habitantes da Terra “sem privilegiar nem excluir ninguém” (CA 31), por exigência
- da promoção da dignidade inviolável de cada pessoa,
- do destino universal dos bens, que “Deus criou para uso de todos” (GS 69) e
- da indispensável coesão social, pacificadora e geradora de uma justa equidade.
Sabemos que uma das principais causas da pobreza é o desemprego. Por isso, urge tomar medidas adequadas para que o emprego se torne, como é de facto, o factor mais decisivo na inclusão. Efectivamente, como diz Bento XVI, “a exclusão do trabalho por muito tempo ou então uma prolongada dependência da assistência pública ou privada corroem a liberdade e a criatividade da pessoa e as suas relações familiares e sociais, causando enormes sofrimentos a nível psicológico e espiritual”. E continua, recordando “a todos, sobretudo aos governantes que estão empenhados a dar um perfil renovado aos sistemas económicos e sociais do mundo, que o primeiro capital a preservar e valorizar é o homem, a pessoa, na sua integridade: com efeito, o homem é o protagonista, o centro e o fim de toda a vida económico-social” (CV 25).
Neste contexto, é de condenar tanto quem contrata a recibo verde, com salários indignos, ou ilegalmente, como quem recusa propostas de emprego e continua a receber apoios sociais, bem como quem permanece “de baixa” sem estar doente.


4. A Comissão está convicta de que a crise, tendo sempre uma gravosa carga negativa, é ou pode ser uma oportunidade estimuladora de um mundo diferente, até porque na sociedade portuguesa há muitas pessoas e organizações que dão um testemunho de vida nesse sentido:
- cuidam fraternalmente dos outros, sobretudo dos mais frágeis, contribuindo activamente para a construção de uma sociedade mais justa e solidária,
- partilham gratuitamente saberes e competências técnicas e profissionais em apoio de pessoas e situações mais vulneráveis,
- acreditam na nossa capacidade de inovar e empenham-se em construir alternativas, por exemplo, reestruturando empresas ou ocupando novos nichos do mercado;
 - assumem o compromisso de ser agentes de uma História comum e com o seu testemunho de vida estimulam colegas e amigos,
- persistem mesmo perante fracassos ou falta de resultados imediatos, muitas vezes  servindo-se das dificuldades para descobrir caminhos novos.
O trabalho que temos pela frente começa no coração de cada um e concretiza-se nos vários espaços de influência e poder de que todos dispomos. Um trabalho que exige diálogo, projectos em comum, colaboração em rede. Se foi a “rede” que gerou esta crise é em “rede” que vamos vencê-la, tendo presente a sentença evangélica de que não é possível “colocar vinho novo em odres velhos”.
As comunidades eclesiais são especialmente chamadas
- a testemunhar os valores de “um reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz” (GS 39) e a convicção de que “a «cidade do homem» não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão” (CV 6),
- a ser voz das vítimas de injustiças silenciosas e silenciadas (cf. JM 20),
- a estimular espaços de debate e de consciencialização da gravidade da situação e da necessidade de uma conversão de mentalidades e atitudes.
Saibamos, pois, ser exigentes na ética, connosco e com os outros, e ser solidários com aqueles que necessitam. Sejamos os construtores do futuro, norteados pelo sentido de justiça e de paz que o Verbo de Deus inscreveu em cada um de nós.
“Soou a hora da acção. Estão em jogo a sobrevivência de tantas crianças inocentes, o acesso a uma condição humana de tantas famílias infelizes, a paz do mundo e o futuro da civilização. Que todos os homens e todos os povos assumam as suas responsabilidades” (PP 80).
Coimbra, 17 de Junho de 2010
Abel da Conceição dos Santos Pinto
Alberto Lopes Gil
Carlos Alberto das Neves Joaquim
Carlos José Rodrigues de Paiva
João Luís Pereira Soeiro de Campos
José António Henriques dos Santos Cabral
José Dias da Silva
Maria Teresa dos Reis Pedroso de Lima Oliveira
Ficha técnica:
Edição da Diocese de Coimbra;
Composição e impressão da Gráfica de Coimbra;
5 000 Exemplares;
Distribuição gratuita.

Sim, nós podemos!

Diário de Coimbra, 29.dez.2013 Temos a noção de que atravessamos tempos únicos em que os desafios intranquilos duma nova era da Civil...